3 de abr. de 2022

Há tanto tempo que circundo as estremas de uma ilusão, que sou apenas um rodar sem fim. Ando às voltas no meu bairro com algumas palavras em círculo em torno a mim. Sem grandes dotes de navegação, não me afundo de repente numa conversa de café, sento-me na mesma cadeira de ontem e deixo que o rumor da mesa ao lado seja apenas o rumor da mesa ao lado, se uma frase me chama a atenção, dou-lhe o tempo que tiver, senão, fico quieto na distância onde me guardo do que acontece. Hoje saí da febre de ontem como quem sai da felicidade de estar preso e não ter nada para escolher. Foi como sair de um quarto que o hábito não consegui-o domesticar. Em tempos as descrições pareciam-me um entediante ofício de notário, agora, na ressaca da repetição, procuro pôr uma palavra depois da outra, com a minúcia que me for possível, até esse quarto ter uma aresta onde me agarrar.



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