6 de abr. de 2022

 Cultivo o pequeno gesto, não mínimo, pequeno. Sem ser largo o suficiente para encontrar pares nos manuais de poesia, nem demasiado pequeno e acabar no armário de um coleccionador. É o único modo que consigo habitar a cidade, digo isto porque, antes de vir para aqui, quando vivia na aldeia, os meus gestos eram largos, mas não tinha casaco que me servisse, dependiam de um fervor que via espelhado em meu redor, bocejava demasiado, de boca aberta e cérebro oxigenado só me saiam advérbios de modo e outros cogumelos para o papel. Aqui nada me exige o esforço desmesurado do desportista, o horizonte está já ali à frente, e nas ruas empedradas há os bancos de jardim onde as pernas sossegam mais um bocado. Descobri tarde que tenho de pôr a minha palha no que vejo, não falo aqui do cisco no olho, mais difícil de tirar do que o faz crer o catecismo, digo intervir no que vejo, por a minha palha para subir ligeiramente o lume. O pequeno gesto é o que me permite a insistência contra a rigidez dos materiais. O tempo fragmentado requer que não penhore o assombro de uma hora morta por umas férias por vir. As férias são tempos fétidos, de falsas liberdades e de pequenas vinganças de quem acumulou frustrações. O tempo arbitrário onde me posso perder é aberto pelo pequeno gesto, gesto que se subtrai à nostalgia, na obsessão de descobrir órgão que tenha ficado por desvendar.




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