Trabalho de costas para a rua. Oiço os passos secos nas pedras. As vozes abafadas que ecoam nas paredes. O nervosismo de um vendedor que deixa cair as coisas enquanto arruma o expositor. Talvez tenha na cabeça um sonho que se repete, do mesmo modo que os gestos se repetem, também os sonhos parecem ter-se esgotado, amolecido, como se, ao recusar-lhes atenção, se diluíssem e se misturassem com os dias. Esmagados pela ausência de um gesto verdadeiro, encenamos com farrapos um gesto de acolhimento, mas não está ninguém para o receber, e quando olhamos de perto também não está ninguém para o entregar. Nos acidentes que tive, a maioria sem gravidade, algo se repetia. Entre a agitação geral, era surpreendido por uma calma inusitada, fora raptado das aparências que se despenhavam, mas continuava presente, com os reflexos mais despertos do que nunca.
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