10 de jan. de 2023

 

Sento-me na mesa mais recuada do café, na ilusão que pertenço a outro espaço e me foi dada a graça de ver a vida dos outros sem fazer parte dela, mas hoje é a penúria que me leva a considerar os gestos que fazem. Perdi a chave que abre a cortina vítrea que os deixa idênticos uns aos outros. O mundo desaparece num estalar de dedos do outro lado da alcova, uma mãe demasiado zelosa aconchega-me o cobertor à volta do pescoço, tão esmerada e caprichosa que apenas respiro se não me mexer. Devo ter tocado numa figura interdita enquanto dormia, um mostrengo de regiões desabrigadas, invejoso do meu estado de vigia, adormeceu-me num gesto veloz e irrefletido, agora, espero que um perfume me tire a cabeça da almofada. A erva está quieta como um tapete, mesmo os ramos mais altos dos pinheiros parecem pertencer a uma gravura que se ajusta à torre de silêncio de um céu uniforme. A mesa recortada pela luz tem uma toalha loura que a deixa a pairar sobre a sombra onde se apoia. Os pássaros andam longe a mendigar migalhas pelo parque, se, entretanto, o vento não sacudir a rua, voltam como um bando de miúdos para o recreio. Por agora nada converge para lado nenhum, nem os comboios abanam o prédio da dormência que o agarrou, parece aguardar que alguém chegue para que o tempo corra num ribeiro que secou.

5 de jan. de 2023

 

O inverno baixa o pulso dos dias e exige atenção a quem caminha pela geada. O tumulto cresce em segredo. A casa ganha uma casca forte como um carvalho, os vidros embaciados, a temperatura bondosa do perro, os estalidos do aquecedor, recebem-me como um amigo. O prédio tem o privilégio da escadaria, uma antecâmara onde me preparo para o tropeço nos outros, desço os andares como um perdigueiro mergulha o nariz numa moita, quando chego à porta da rua todas as pequenas impressões desaparecem com o vento, saio despojado, pronto a acolher o movimento da pequena cidade onde habito. Ando pelas ruas alegre como um miúdo que salta vedações. Encostada à porta do banco, uma mulher num vestido de lã branca, um nevão sobre colinas alentejanas, a face rosada fura o gelo, é uma planta sem nome com os olhos pintados de azul, uma emboscada de milagres. A pintura é uma sonda que explora o enigma da aparência como se pudéssemos apenas tactear uma janela, por momentos perco o pé, mas depois de uma natação brusca de sobrevivência reconheço o outro sem abandonar as perguntas, sempre me pareceu que as mulheres nadam com mais agilidade do que eu, de qualquer modo, é impossível construir uma prancha de salvação, estamos sempre dentro de água. Tinha o balanço felino e um olhar de cordeiro, uma fera indecifrável, a voz vinha do outro lado do muro, um muro impossível de saltar, tentá-lo desencoraja qualquer miúdo experiente em vedações. De onde vem a voz que se mistura com a tangência da cor? Encontrei uma pista nos diários de Canetti, "Die Stimmen der Menschen sind Gottes Brot", as vozes dos homens são o pão de Deus.

4 de jan. de 2023

 

Desci a rua com o sol de frente, um lago amarelo engolia tudo o que lhe tentava resistir. Sem horizonte que me guiasse, movia as pernas sem a convicção que mudava de lugar. Os prédios mais próximos pareciam de papel, iam ficando em fanicos conforme a rua se afunilava, apenas umas pombas de cerâmica que adornam a cumeeira de um telhado saiam em brasa da fornalha que devorava a rua. Por momentos pareceu-me insensato caminhar nesta direcção, não conseguia distinguir se era a geada ou o sol que me queimava os dedos. Dei dois passos para o lado e a calçada largou a pele que a enlouquecia, tal como quando fecho os olhos a fina membrana das pálpebras se torna num vermelho vivo, colado a mim como um inferno privado. Acreditava que a rua desembocava na praça, mas a sombra terminou e a grande esfera voltou a deixar o ar espesso como um cobertor. Só conseguia ver dois passos à frente, com a mão a proteger-me do dia que picava. O hábito é mais forte que uma parelha de cavalos, nada se separava de modo tão exuberante como este dia, uma boca arreganhada cheia de dentes de marfim, no entanto, enquanto o sol se multiplicava em pequenos incêndios pelas montras e vidros da cidade, passavam por mim, dourados, semelhantes a heróis da antiguidade, rostos aborrecidos e acabrunhados, abriam as portas do negócio como quem cai numa armadilha.

2 de jan. de 2023

 

Era suposto terem definhado, se o inverno fosse rigoroso ficariam tesas no parapeito, mas maníacas como são, apesar de só as mais valentes cá andarem, continuam a atravessar fronteiras transparentes, enquanto se debatem com o ilícito. Não chateiam ninguém neste período, teimam em escapar à probabilidade, testemunhas de um espaço sem uso nem recurso. Vivem do que muda de posição, limpam-se de tudo o que é sem mancha para se besuntarem no que sobeja quando o espírito recua. Os seus caminhos desembocam sempre num crime qualquer, tocam no mais concreto dos fantasmas que nos ocupam. Como um familiar maldito, uma longa linha de desentendimentos nos mantém num ódio que se disputa em vizinhança. Presas numa cortina, quietas, acordam num tremor para a existência, e confirmam o que Cioran disse sobre nós, é por desejo de tormenta que perseguimos o que queremos.

1 de jan. de 2023

 

O que sou para me propor ao que seja? Tenho a boca seca e um cinto a apertar-me o crânio, enquanto a água caí de um céu batido como claras em castelo, a luz peneirada e esponjosa deixa a sala lenta e caduca, calculo o que farei no ano sem saber o que se moveu para que chegasse. Estou colado ao tabuleiro, apenas as vozes passam como correntes de ar, ninguém se move, tal é o medo que a cabeça ateie como um fósforo. Aprendemos a falar para ficarmos hirtos como menires, todos se explicam, pirralhos que se desculpam para receber um doce, numa paralisia mortal. O que mudou debaixo do céu de prata? Nem um pião, nem uma saia rodada, no entanto, uma palavra podia tirar-me do sofá.

28 de dez. de 2022

 

Perdi a cabeça. Não de um modo jubiloso, como quando entrava na noite a descoberto e virava os objectos do avesso, nesses tempos, era eu, com gulodice, que a entregava numa bandeja. Desta vez, tudo aconteceu de modo imperceptível, sem saber onde a pusera ou que guilhotina a amputara. Tinha a mania de andar às escuras pela casa, agora, não me atrevia a levantar sem acender a luz, tal era o medo de lhe pôr os pés em cima. Podia ter acordado sem ela, um acidente enquanto dormia, sei de casos que acordam paralíticos sem saber por quê. Os vizinhos, por modéstia, dizem-me sempre - olá, como vai? - como se nada se tivesse passado, têm uma rotina rigorosa, não se ocupam com ninharias destas. A casa estava limpa de espelhos. Foi um caminho longo até este despojamento. A renúncia do que me estagna é uma obsessão tardia e inconstante, é a minha única virtude, instável e hesitante. Os espelhos mutilam o mundo. Quando os olhava via apenas um rosto, tudo o resto se tornava uma ondulação circular à sua volta. Para olhar um espelho sem sentir esse corte frio e cirúrgico teria de ter o espírito guerreiro dos que conhecem os poderes encantatórios da imagem. Mas as imagens que me rodeavam eram pobres como a conversa de café, cheias de trejeitos que fortalecem o estereótipo. Queria ser um tipo consequente, não ia criticar o cão por enfiar o focinho no lixo e ir-me olhar ao espelho quando chegasse a casa. O meu reflexo estava por todo o lado, de um modo vago e dissimulado, os espelhos, devido à minha fraca constituição, davam-me a ilusão de uma forma adquirida. Agora que não os tenho posso pensar no impulso que me leva até eles, como uma identidade ganha à partida, impulso que me teria devorado, não fossem as interrupções, a timidez e reclusão. O que me vale é que não pensamos com a cabeça, por isso continuo as minhas divagações sem a interrupção desse apetrecho que julga poder viver separado do corpo, no seu enorme acervo de pormenores há uma exaltação exagerada que a deixa na soberba de o criador ter perdido mais tempo consigo do que com o resto do corpo. Salta fora do colarinho como um gladíolo com as suas múltiplas caras. Não admira que tanta gente se agarre a ela com unhas e dentes, o que fariam se acordassem sem o belo emblema? Estava perdido, os homens reconhecem-se pela cabeça. E eu era apenas uma grande corrente de ar.

26 de dez. de 2022

 

Estamos presos no café, a chuva desaba sem piedade, num crescendo, um transe que passa pelas gotas como electricidade, penso num animal que se enamora da febre da corrida, e assim fica, até enlouquecer ou o corpo dar de si. Um regato faz da calçada um cenário quase vivo, reluzente e ondulante. No vidro do café vejo o reflexo dos funcionários do outro lado do balcão, movem-se como espectros sobre um pano de água, os céus escuros são um celeiro cheio, sem outro desejo senão despejar o ouro diáfano que confunde as qualidades do que me parecia sólido. Fixo a água a correr, num serpentear interminável, mansa e meiga como uma caixa de música, o café está quente e agitado, olho para o pequeno regato que varre as pedras num tom cristalino, perco-me no seu soluçar, um encadeamento de pequenos nadas imprecisos, bebem do ar a cinza e da pedra a palidez, mas de súbito, um ritmo de tambores junta-se à melodia que me encantava, sei que se irá calar, senão engole a cidade de uma vez, temo tornar-me permeável como se tivesse embriagado pelo hasch, as águas sobem de um poço que desconhecia, embebem-me a roupa e as ideias, até perder tudo o que me distingue e desaparecer na corrente. Perto do almoço o sol pôs fim à divagação, vagar e errar num regato é fácil de tragar, mas o mar é uma cama demasiado larga para dormir sossegado, talvez por isso seja tão difícil falar dele sem dizer trivialidades.

23 de dez. de 2022

 

Quando cheguei a casa tinha um cão sentado à porta. Aproximei-me sem medo, sei que cheiram o que sentimos, como se o espírito andasse à nossa frente ao sabor do vento. Assim que lhe cheguei perto, arreganhou o focinho e mostrou-me uma fileira de dentes notável, dei um passo atrás e fiquei a olhar para ele. Não pensei de imediato na maldade do animal, mas no que seria que o deixava assim, nervoso e agressivo. Estava calmo, não me sentia mal, tinha de tentar entrar, era noite, e não estava preparado para o frio que ia cair. Se fosse um homem desarmado, onde o medo não arranja poiso, dos que olham para um bicho e o lêem de imediato, que sentem a constituição das coisas como quem sente o peso do casaco que leva aos ombros, um caminhante que nomeia as plantas como quem as cumprimenta, mas sinto o meu desastre com demasiado vigor, e este entrave deixa-me encostado ao lado mais ríspido das coisas. Talvez fosse isso, este bicho estava aqui para me impedir de entrar onde me acomodava a um romantismo estéril e inconsequente. Olhei para ele sem o desejo de passar por ele, pareceu-me pequeno e afável, voltei a aproximar-me, desta vez ladrou-me, como se fosse a última vez que me avisava. Tinha cometido o erro do costume, vi no que me aparecia à frente apenas uma vontade de superar o meu fracasso. Se era covarde o suficiente para passar, mais valia ir para outro lado, mas não havia outro lado para ir. Sentei-me no passeio, e o grande guardião veio inesperadamente sentar-se no meu colo.

22 de dez. de 2022

 

Quando acordei as mais vivas eram as gaivotas, cortavam a janela com diagonais rápidas como uma pincelada. Têm um voo sóbrio, a carantonha que mostram quando pousam no telhado deixa antever que não são para brincadeiras. Certo é que já as vi esfrangalhar um pombo, mas nunca gracejar umas com as outras. De vigia nos altos postos, não baixam a guarda com facilidade, talvez por terem de lidar com a rispidez dos mares, por se perderem na raiz dos ventos. Nem todos têm de ser gaiteiros no mundo das aves, porém, rio-me do desafio com que me olham, podem vazar-me um olho, mas falta-lhes a majestade das rapinantes, não as consigo levar a sério, são arruaceiras, fazem demasiado espalhafato para as ver com a altivez que parecem exigir. Mas foram elas que me arrancaram da cama, os guinchos salgavam o quarto ainda às escuras e quando abri a janela o voo raptou-me da dormência em que me encontrava.

18 de dez. de 2022

 

Ao primeiro olhar parecem desengonçados, movimentos rectos e quebrados, como se tivessem as ancas fora do sítio. Erguem a cabeça de modo postiço, quase arrogante, indiferentes, uma mangueira que se desenrola, um pescoço tão longo requer um trabalho de funambulista para se manter direito. O ar à sua volta parece da espessura da água, quando voam lembram a ondulação amistosa de uma lagoa. Não são presunçosos apesar da nobreza distintiva, são belos e apalermados, uma interrupção brusca da banalidade. Têm a graça do desequilíbrio, sem par em nada do que os rodeia, recortados do décor como um traço de batom sobre uma fotografia. Provavelmente criados num gaguejo do criador, entre mundos, quando estava farto de se repetir, talvez por isso estejam excluídos da aparente justiça distributiva, escapam ao equilíbrio por todos os lados, frágeis e extravagantes, uma graça e um malogro, bizarros para o resto da fauna, só lhes resta andarem juntos, um sozinho é o inferno desmascarado, chama sobre si todos os instintos retorcidos, um tal emblema de alteridade serve de expiação aos dentes do predador, fugidos do outro lado do tempo, uma flamma que se escapou ao éden.