23 de dez. de 2022

 

Quando cheguei a casa tinha um cão sentado à porta. Aproximei-me sem medo, sei que cheiram o que sentimos, como se o espírito andasse à nossa frente ao sabor do vento. Assim que lhe cheguei perto, arreganhou o focinho e mostrou-me uma fileira de dentes notável, dei um passo atrás e fiquei a olhar para ele. Não pensei de imediato na maldade do animal, mas no que seria que o deixava assim, nervoso e agressivo. Estava calmo, não me sentia mal, tinha de tentar entrar, era noite, e não estava preparado para o frio que ia cair. Se fosse um homem desarmado, onde o medo não arranja poiso, dos que olham para um bicho e o lêem de imediato, que sentem a constituição das coisas como quem sente o peso do casaco que leva aos ombros, um caminhante que nomeia as plantas como quem as cumprimenta, mas sinto o meu desastre com demasiado vigor, e este entrave deixa-me encostado ao lado mais ríspido das coisas. Talvez fosse isso, este bicho estava aqui para me impedir de entrar onde me acomodava a um romantismo estéril e inconsequente. Olhei para ele sem o desejo de passar por ele, pareceu-me pequeno e afável, voltei a aproximar-me, desta vez ladrou-me, como se fosse a última vez que me avisava. Tinha cometido o erro do costume, vi no que me aparecia à frente apenas uma vontade de superar o meu fracasso. Se era covarde o suficiente para passar, mais valia ir para outro lado, mas não havia outro lado para ir. Sentei-me no passeio, e o grande guardião veio inesperadamente sentar-se no meu colo.

22 de dez. de 2022

 

Quando acordei as mais vivas eram as gaivotas, cortavam a janela com diagonais rápidas como uma pincelada. Têm um voo sóbrio, a carantonha que mostram quando pousam no telhado deixa antever que não são para brincadeiras. Certo é que já as vi esfrangalhar um pombo, mas nunca gracejar umas com as outras. De vigia nos altos postos, não baixam a guarda com facilidade, talvez por terem de lidar com a rispidez dos mares, por se perderem na raiz dos ventos. Nem todos têm de ser gaiteiros no mundo das aves, porém, rio-me do desafio com que me olham, podem vazar-me um olho, mas falta-lhes a majestade das rapinantes, não as consigo levar a sério, são arruaceiras, fazem demasiado espalhafato para as ver com a altivez que parecem exigir. Mas foram elas que me arrancaram da cama, os guinchos salgavam o quarto ainda às escuras e quando abri a janela o voo raptou-me da dormência em que me encontrava.

18 de dez. de 2022

 

Ao primeiro olhar parecem desengonçados, movimentos rectos e quebrados, como se tivessem as ancas fora do sítio. Erguem a cabeça de modo postiço, quase arrogante, indiferentes, uma mangueira que se desenrola, um pescoço tão longo requer um trabalho de funambulista para se manter direito. O ar à sua volta parece da espessura da água, quando voam lembram a ondulação amistosa de uma lagoa. Não são presunçosos apesar da nobreza distintiva, são belos e apalermados, uma interrupção brusca da banalidade. Têm a graça do desequilíbrio, sem par em nada do que os rodeia, recortados do décor como um traço de batom sobre uma fotografia. Provavelmente criados num gaguejo do criador, entre mundos, quando estava farto de se repetir, talvez por isso estejam excluídos da aparente justiça distributiva, escapam ao equilíbrio por todos os lados, frágeis e extravagantes, uma graça e um malogro, bizarros para o resto da fauna, só lhes resta andarem juntos, um sozinho é o inferno desmascarado, chama sobre si todos os instintos retorcidos, um tal emblema de alteridade serve de expiação aos dentes do predador, fugidos do outro lado do tempo, uma flamma que se escapou ao éden.

17 de dez. de 2022

 

Endireito-me devagar, sem ligar aparelhos e outras máquinas de sobressaltos, não me quero tornar um cavalo assustado, apesar de me seduzir o frenesi. Não tenho à mão nada que me acomode à temperatura ambiente, tenho uma guitarra, também ela solta e desafinada, estico-lhe as cordas para encher a sala com uns acordes, qualquer coisa que se intrometa no vazio que faz um chinfrim insuportável, que descubra o que lhe falta, que invente o que lhe falta, porque a angústia é demasiado prestável, está sempre aí, quieta, à espera que não me consiga rir, e nunca mais acaba, se lhe der atenção engole o espaço inteiro. Mais vale não falar do que me preocupa. Um cavalo bravo é belo de ver a correr nos montes, não de ter aos coices dentro do quarto. Confio-me a uma mão-cheia de imagens que tenho na parede como quem se confia a uma tradução de uma língua que lhe pulsa nas orelhas. Um pássaro amarelo, sobre uma sombra estilhaçada entre duas linhas cinza, parece ter atravessado um vidro, ileso como se saísse do ovo para os céus, sem ter de aprender a voar. Aprender? Dizemos nós, para marcar essa passagem do ninho para a vertigem, mas não o soube sempre? Desde o voltear incessante no ovo, amarelo como o sol, dádiva incalculável, um pescoço de cavalo degolado, dizem os hindus, desde esse rodopio, um pulsar, sem centro, destinado a ser fuga, uma flecha sem retorno. Envolto num plasma transparente de vitaminas, uma bolsa amarela onde duas silabas vibram, voar.

16 de dez. de 2022

 

Estou convalescente, como se saísse da bruma num cavalo ensonado. Nunca fui muito empolgado com o ser valente, esforcei-me por não ser covarde. Hoje, para ser valente, tenho de aproveitar bem os deslizes e os balanços, sem me enlear numa atenção desmedida do que faço. Os terrenos ensopados cheiram a ferro e enxofre, são um caldo acastanhado de putrefação, vejo-os da estrada onde passo de carro. Enterrava os pés na lama com prazer, não fosse estar a arribar de uma maleita e não querer andar para trás. Também estou alagado, longe da colina onde me encostava sem molhar o rabo, é normal que o fogo custe a pegar. Talvez possa chegar ao lume pela lama, essa aguada maldita. A língua tinge as coisas mais do que a tinta, e arrastar alguém pela lama é uma injúria que denigre a nobre canja de minérios. A terra enternecida, mole, adormecida sob o arrotar excessivo das águas, é um espelho baço de um céu convulso, bruto como um romântico que degola o que lhe aparece com o seu sentimento de sublime.

12 de dez. de 2022

 

Talvez seja da eletricidade, se deixar a mão a dois centímetros do braço consigo ver os pêlos a porem-se de pé. O vento sopra como se quisesse limpar as ruas de uma apatia constrangedora. Se for da eletricidade consigo perceber a vontade de dar cotoveladas aos que se atravessam no caminho, tenho Macbeth a sussurrar-me, mais vale enfurecer o coração do que adormecê-lo. A cabeça pulsa ao seu próprio ritmo quando a cefaleia se intromete, perde o rastro do animal que caça. Seja como for, o melhor é sair. O vento volta tudo do avesso, o paracetamol é meigo, com vagar o sangue fica menos arrepiado. A pedra lavada espelha o branco das paredes enquanto a água corre apressada por encontrar onde desapareça, talvez descubra o que perseguia, se me lembrar. As biqueiras cantam nas poças, o vento assobia nos telhados, o mau tempo tem o seu modo de me acompanhar. A memória canta mais do que mostra, é com uma melodia que aponta para qualquer lado. Mostrei o dedo ferido como se fosse um talismã, um cartão de membro, fecho o alçapão, serve-me de pouco contentar-me com cantigas de chuveiro. Não fosse a porosidade, este poço onde o zumbido dos motores ecoa e o céu se espelha. Se conseguir acompanhar a alegria rítmica da chuva estou safo.

8 de dez. de 2022

 

Entre papéis amontoados, a língua muda, apesar da chuva copiosa, se fosse um órgão como os outros não pararia, pelo menos não assim, como se morresse de tantas mortes diferentes, o coração incansável na labuta muscular, mas a língua, que Rosenzweig dizia ser mais que o sangue, quieta num túmulo húmido com pilares de marfim. Do outro lado do vidro os ramos silvam ao vento, a terra desperta pesada sob a pegada celeste. Deste lado o desacordo, um corpo que se move obstinadamente, longe dos sentidos colhidos ao acaso.

6 de dez. de 2022

 

O céu, um tecto, cinza e inerte sobre o delírio, mais baixo do que o costume, quase um abrigo, um pedaço de tinta estalada, inquietante, sempre manchado por uma porcaria qualquer, esse tecto sobre o delírio, um tecto falso, vazio, sem projector que o enfeite e me distraia da possibilidade de derrocada. Um sulco, como uma prega num vestido, varando-o de norte a sul, não me deixa desviar os olhos, uma cortina. Delirar é quando o arado se escapa ao sulco onde corria, diz o dicionário, que desta vez faz de pirómano em vez de polícia, o que sai fora da lira. O céu, uma caixa de ressonância, rasgado por um sulco, uma lira, dois cornos tensos sobre o vazio, nenhum dedo para o tocar.

4 de dez. de 2022

 

A constipação macera-me o corpo, este, vivia numa sobriedade precária, agora espera alguma vitalidade enquanto plana numa indecisão entorpecida. Procuro-a nas coisas próximas, mas o meu cão dorme e nenhuma amazona atravessa a rua num passo desenvolto. Ficar aninhado num canto é construir uma cama de memórias que me irão atraiçoar, os convalescentes procuram a sombra como quem já sabe o que tem ao colo, mas se é entre memórias que vivo, se elas respiram como laranjas a perfumar o ar, penso nos cavalos de Faulkner que quietos ou a suar numa ladeira são todos fibra com a vida a zumbir entre as orelhas. Vejo a Laica, mesmo a dormir está alerta, pronta a dar um salto de ginasta se alguém bater à porta, uma ignição célere como fogo em feno louro, também eu, se perigo houvesse que me mostrasse o rosto, me ergueria destas águas tépidas onde me diluo como um saco de chá, ou talvez não, talvez ficasse a ponderar o que é e o que não é.

30 de nov. de 2022

 

A minha voz acende-se e apaga-se conforme o que a rodeia, é suscetível, surda aos meus desejos, guia-me a maioria das vezes por onde lhe apetece. Domino-a com silêncios rigorosos. Se encontrar alguém que lhe pareça tocar na mesma afinação, junta-se a ele, não precisa de mim senão para lhe dar corpo. Se lhe der trela, leva-me certamente a um café, gosta do sabor acre e doce dos cigarros e da viscosidade de um licor. Exige cuidados sem fim, impressionável e sentimental, é um correr de lamurias, que a inibo de ir onde podia, que estou sem condições para o seu estatuto, os pulmões definham e ela está no pico da sua grandeza. Gosta de discutir, eu já não tenho pachorra, bastam duas ou três palavras para a ver esfregar as mãos. Tive de lhe impor um regime austero, fala ao meu comando e se houver dúvidas sobre quem conduz quem, ponho a mão à frente da boca. Mas tem um gosto ancestral pela disciplina, e marca passo ao lado dos pensamentos que dão em debandada quando ouvem o tocar dos clarins. Começou a responder-me com frases feitas para mostrar que por mais magra que fosse a manifestação não abdicaria do seu estilo. Cansado dos seus caprichos, experimentei prolongar os silêncios, uma semana, um mês, já raramente me canta ao ouvido, ando com um caderninho atrás para quando preciso de falar com alguém, mas a cabra tinha poiso assente nas minhas entranhas, e palavra aqui, palavra ali vai deturpando o que escrevo.