17 de dez. de 2022

 

Endireito-me devagar, sem ligar aparelhos e outras máquinas de sobressaltos, não me quero tornar um cavalo assustado, apesar de me seduzir o frenesi. Não tenho à mão nada que me acomode à temperatura ambiente, tenho uma guitarra, também ela solta e desafinada, estico-lhe as cordas para encher a sala com uns acordes, qualquer coisa que se intrometa no vazio que faz um chinfrim insuportável, que descubra o que lhe falta, que invente o que lhe falta, porque a angústia é demasiado prestável, está sempre aí, quieta, à espera que não me consiga rir, e nunca mais acaba, se lhe der atenção engole o espaço inteiro. Mais vale não falar do que me preocupa. Um cavalo bravo é belo de ver a correr nos montes, não de ter aos coices dentro do quarto. Confio-me a uma mão-cheia de imagens que tenho na parede como quem se confia a uma tradução de uma língua que lhe pulsa nas orelhas. Um pássaro amarelo, sobre uma sombra estilhaçada entre duas linhas cinza, parece ter atravessado um vidro, ileso como se saísse do ovo para os céus, sem ter de aprender a voar. Aprender? Dizemos nós, para marcar essa passagem do ninho para a vertigem, mas não o soube sempre? Desde o voltear incessante no ovo, amarelo como o sol, dádiva incalculável, um pescoço de cavalo degolado, dizem os hindus, desde esse rodopio, um pulsar, sem centro, destinado a ser fuga, uma flecha sem retorno. Envolto num plasma transparente de vitaminas, uma bolsa amarela onde duas silabas vibram, voar.

16 de dez. de 2022

 

Estou convalescente, como se saísse da bruma num cavalo ensonado. Nunca fui muito empolgado com o ser valente, esforcei-me por não ser covarde. Hoje, para ser valente, tenho de aproveitar bem os deslizes e os balanços, sem me enlear numa atenção desmedida do que faço. Os terrenos ensopados cheiram a ferro e enxofre, são um caldo acastanhado de putrefação, vejo-os da estrada onde passo de carro. Enterrava os pés na lama com prazer, não fosse estar a arribar de uma maleita e não querer andar para trás. Também estou alagado, longe da colina onde me encostava sem molhar o rabo, é normal que o fogo custe a pegar. Talvez possa chegar ao lume pela lama, essa aguada maldita. A língua tinge as coisas mais do que a tinta, e arrastar alguém pela lama é uma injúria que denigre a nobre canja de minérios. A terra enternecida, mole, adormecida sob o arrotar excessivo das águas, é um espelho baço de um céu convulso, bruto como um romântico que degola o que lhe aparece com o seu sentimento de sublime.

12 de dez. de 2022

 

Talvez seja da eletricidade, se deixar a mão a dois centímetros do braço consigo ver os pêlos a porem-se de pé. O vento sopra como se quisesse limpar as ruas de uma apatia constrangedora. Se for da eletricidade consigo perceber a vontade de dar cotoveladas aos que se atravessam no caminho, tenho Macbeth a sussurrar-me, mais vale enfurecer o coração do que adormecê-lo. A cabeça pulsa ao seu próprio ritmo quando a cefaleia se intromete, perde o rastro do animal que caça. Seja como for, o melhor é sair. O vento volta tudo do avesso, o paracetamol é meigo, com vagar o sangue fica menos arrepiado. A pedra lavada espelha o branco das paredes enquanto a água corre apressada por encontrar onde desapareça, talvez descubra o que perseguia, se me lembrar. As biqueiras cantam nas poças, o vento assobia nos telhados, o mau tempo tem o seu modo de me acompanhar. A memória canta mais do que mostra, é com uma melodia que aponta para qualquer lado. Mostrei o dedo ferido como se fosse um talismã, um cartão de membro, fecho o alçapão, serve-me de pouco contentar-me com cantigas de chuveiro. Não fosse a porosidade, este poço onde o zumbido dos motores ecoa e o céu se espelha. Se conseguir acompanhar a alegria rítmica da chuva estou safo.

8 de dez. de 2022

 

Entre papéis amontoados, a língua muda, apesar da chuva copiosa, se fosse um órgão como os outros não pararia, pelo menos não assim, como se morresse de tantas mortes diferentes, o coração incansável na labuta muscular, mas a língua, que Rosenzweig dizia ser mais que o sangue, quieta num túmulo húmido com pilares de marfim. Do outro lado do vidro os ramos silvam ao vento, a terra desperta pesada sob a pegada celeste. Deste lado o desacordo, um corpo que se move obstinadamente, longe dos sentidos colhidos ao acaso.

6 de dez. de 2022

 

O céu, um tecto, cinza e inerte sobre o delírio, mais baixo do que o costume, quase um abrigo, um pedaço de tinta estalada, inquietante, sempre manchado por uma porcaria qualquer, esse tecto sobre o delírio, um tecto falso, vazio, sem projector que o enfeite e me distraia da possibilidade de derrocada. Um sulco, como uma prega num vestido, varando-o de norte a sul, não me deixa desviar os olhos, uma cortina. Delirar é quando o arado se escapa ao sulco onde corria, diz o dicionário, que desta vez faz de pirómano em vez de polícia, o que sai fora da lira. O céu, uma caixa de ressonância, rasgado por um sulco, uma lira, dois cornos tensos sobre o vazio, nenhum dedo para o tocar.

4 de dez. de 2022

 

A constipação macera-me o corpo, este, vivia numa sobriedade precária, agora espera alguma vitalidade enquanto plana numa indecisão entorpecida. Procuro-a nas coisas próximas, mas o meu cão dorme e nenhuma amazona atravessa a rua num passo desenvolto. Ficar aninhado num canto é construir uma cama de memórias que me irão atraiçoar, os convalescentes procuram a sombra como quem já sabe o que tem ao colo, mas se é entre memórias que vivo, se elas respiram como laranjas a perfumar o ar, penso nos cavalos de Faulkner que quietos ou a suar numa ladeira são todos fibra com a vida a zumbir entre as orelhas. Vejo a Laica, mesmo a dormir está alerta, pronta a dar um salto de ginasta se alguém bater à porta, uma ignição célere como fogo em feno louro, também eu, se perigo houvesse que me mostrasse o rosto, me ergueria destas águas tépidas onde me diluo como um saco de chá, ou talvez não, talvez ficasse a ponderar o que é e o que não é.

30 de nov. de 2022

 

A minha voz acende-se e apaga-se conforme o que a rodeia, é suscetível, surda aos meus desejos, guia-me a maioria das vezes por onde lhe apetece. Domino-a com silêncios rigorosos. Se encontrar alguém que lhe pareça tocar na mesma afinação, junta-se a ele, não precisa de mim senão para lhe dar corpo. Se lhe der trela, leva-me certamente a um café, gosta do sabor acre e doce dos cigarros e da viscosidade de um licor. Exige cuidados sem fim, impressionável e sentimental, é um correr de lamurias, que a inibo de ir onde podia, que estou sem condições para o seu estatuto, os pulmões definham e ela está no pico da sua grandeza. Gosta de discutir, eu já não tenho pachorra, bastam duas ou três palavras para a ver esfregar as mãos. Tive de lhe impor um regime austero, fala ao meu comando e se houver dúvidas sobre quem conduz quem, ponho a mão à frente da boca. Mas tem um gosto ancestral pela disciplina, e marca passo ao lado dos pensamentos que dão em debandada quando ouvem o tocar dos clarins. Começou a responder-me com frases feitas para mostrar que por mais magra que fosse a manifestação não abdicaria do seu estilo. Cansado dos seus caprichos, experimentei prolongar os silêncios, uma semana, um mês, já raramente me canta ao ouvido, ando com um caderninho atrás para quando preciso de falar com alguém, mas a cabra tinha poiso assente nas minhas entranhas, e palavra aqui, palavra ali vai deturpando o que escrevo.

29 de nov. de 2022

 

Qualquer coisa teima em atrasar-me o passo, depois de ter esticado o pescoço à beira-mar, um vento agudo, rápido e inesperado, cortou-me a garganta, a harpa que me anima o corpo perdeu a arte de passar despercebida. Hoje, sem qualquer pudor, era o centro das atenções. Um ardor constante como uma caldeira sobreaquecida e uma voz que não me pertencia. Uma voz que, por momentos, passada a estranheza da sua primeira aparição, me fascinou. Não é todos os dias que a que dizem marcar a estabilidade de uma identidade muda. Aveludada e grave, com muito mais vigor do que a minha, parece ter percorrido o mundo, tem um ritmo largo como um contrabaixo que sustenta os rodopios de uma andorinha. Uma voz vagabunda, que nunca andou de barco que não fosse a remos, nem de comboio a pagar bilhete, não é voz que se passeie por salões, sabe a gravidade de um prazer gratuito, é com um cigarro no canto dos lábios que arrisca levar uma reprimenda. Talvez tenha que ser assim para aguentar os coices que recebe sem ir a correr procurar a mamã. Não me posso acostumar a ela, surpreendeu-me durante a noite como um fantasma, vai desaparecer do mesmo modo, dura como é, sem dar explicações a ninguém.

28 de nov. de 2022

 

Saí de casa num passo largo, tão largo que a rua se afunilava como um carril, rua que entregue a si mesma é de uma monotonia sem igual, estreita e curta, sem grandes prodígios nos prédios que me encaminham até ao centro da cidade. Surpreendi-me porque parecia decidido a ir ao encontro de qualquer coisa, mas não tinha nada que me esperasse em lugar nenhum. Tudo estava singularmente indiferente à minha passagem, temia que se ficasse quieto a rua começaria a ruir. No café tirei o casaco e a impaciência, sentei-me junto à janela onde me costumo sentar, na mesa ao lado, uma mulher com um caderno aberto, rosto apoiado na mão esquerda, rabiscava devagar como se as palavras lhe viessem de um lugar distante. Fiquei visivelmente perturbado, como uma corda afinada um tom acima, movia-me a custo, a luz transparente que entrava pelos vidros altos recortava o café em dois triângulos equilibrados, parava junto à minha mesa, deixando-a no lado sombrio, por momentos estávamos demasiado próximos e a uma distância incalculável. Talvez isto se deva ainda à impaciência que trouxe de casa, não vejo outra razão para me sentir incomodado por uma pessoa que não conheço, certamente se está a borrifar se hesito a pôr os livros do lado esquerdo ou direito da mesa. Claro que estava curioso pelo que escrevia no caderno, e, não me vou armar em duro, era uma bela figura a menos de três palmos de mim, não era a desconfiança que me atrapalhava, mas tudo aquilo que não conseguia verbalizar na altura. O cabelo negro atado, um caracol caído sobre a face rosada como um Peiot hebraico num rapaz imberbe, o pescoço longo e branco como um choupo, enquanto os olhos imóveis fixavam a ponta da caneta com a impassibilidade de um cirurgião. Lembro-me que, misturado ao aroma torrado do café, um perfume cítrico e adocicado dava a impressão de estarmos no exterior. A luz entrava pelas altas janelas como através de um bosque. O que escreveria no caderno? Talvez segredos inconfessáveis, ou a lista de compras a fazer, seja o que for, ficará consigo do outro lado do muro onde escrevi estas palavras.

27 de nov. de 2022

 Na orla do terreno, o arco-íris brilhante do óleo convencem-me que a morte não se veste de negro, mas, com um robe extravagante, é com estrondo e opulência que toca as vestes do mundo, teme que ninguém dê por ela. A exaltação deixa cores garridas por onde passa, o roxo aureolado de verde num rosto de tez clara, a argila prateada pelo fósforo dos fertilizantes, os berros acesos como holofotes, faces rubras de sangue, a dormência branca do álcool com os punhos cerrados. A fúria deixa sem terra o singular comércio dos discretos.