6 de dez. de 2022

 

O céu, um tecto, cinza e inerte sobre o delírio, mais baixo do que o costume, quase um abrigo, um pedaço de tinta estalada, inquietante, sempre manchado por uma porcaria qualquer, esse tecto sobre o delírio, um tecto falso, vazio, sem projector que o enfeite e me distraia da possibilidade de derrocada. Um sulco, como uma prega num vestido, varando-o de norte a sul, não me deixa desviar os olhos, uma cortina. Delirar é quando o arado se escapa ao sulco onde corria, diz o dicionário, que desta vez faz de pirómano em vez de polícia, o que sai fora da lira. O céu, uma caixa de ressonância, rasgado por um sulco, uma lira, dois cornos tensos sobre o vazio, nenhum dedo para o tocar.

4 de dez. de 2022

 

A constipação macera-me o corpo, este, vivia numa sobriedade precária, agora espera alguma vitalidade enquanto plana numa indecisão entorpecida. Procuro-a nas coisas próximas, mas o meu cão dorme e nenhuma amazona atravessa a rua num passo desenvolto. Ficar aninhado num canto é construir uma cama de memórias que me irão atraiçoar, os convalescentes procuram a sombra como quem já sabe o que tem ao colo, mas se é entre memórias que vivo, se elas respiram como laranjas a perfumar o ar, penso nos cavalos de Faulkner que quietos ou a suar numa ladeira são todos fibra com a vida a zumbir entre as orelhas. Vejo a Laica, mesmo a dormir está alerta, pronta a dar um salto de ginasta se alguém bater à porta, uma ignição célere como fogo em feno louro, também eu, se perigo houvesse que me mostrasse o rosto, me ergueria destas águas tépidas onde me diluo como um saco de chá, ou talvez não, talvez ficasse a ponderar o que é e o que não é.

30 de nov. de 2022

 

A minha voz acende-se e apaga-se conforme o que a rodeia, é suscetível, surda aos meus desejos, guia-me a maioria das vezes por onde lhe apetece. Domino-a com silêncios rigorosos. Se encontrar alguém que lhe pareça tocar na mesma afinação, junta-se a ele, não precisa de mim senão para lhe dar corpo. Se lhe der trela, leva-me certamente a um café, gosta do sabor acre e doce dos cigarros e da viscosidade de um licor. Exige cuidados sem fim, impressionável e sentimental, é um correr de lamurias, que a inibo de ir onde podia, que estou sem condições para o seu estatuto, os pulmões definham e ela está no pico da sua grandeza. Gosta de discutir, eu já não tenho pachorra, bastam duas ou três palavras para a ver esfregar as mãos. Tive de lhe impor um regime austero, fala ao meu comando e se houver dúvidas sobre quem conduz quem, ponho a mão à frente da boca. Mas tem um gosto ancestral pela disciplina, e marca passo ao lado dos pensamentos que dão em debandada quando ouvem o tocar dos clarins. Começou a responder-me com frases feitas para mostrar que por mais magra que fosse a manifestação não abdicaria do seu estilo. Cansado dos seus caprichos, experimentei prolongar os silêncios, uma semana, um mês, já raramente me canta ao ouvido, ando com um caderninho atrás para quando preciso de falar com alguém, mas a cabra tinha poiso assente nas minhas entranhas, e palavra aqui, palavra ali vai deturpando o que escrevo.

29 de nov. de 2022

 

Qualquer coisa teima em atrasar-me o passo, depois de ter esticado o pescoço à beira-mar, um vento agudo, rápido e inesperado, cortou-me a garganta, a harpa que me anima o corpo perdeu a arte de passar despercebida. Hoje, sem qualquer pudor, era o centro das atenções. Um ardor constante como uma caldeira sobreaquecida e uma voz que não me pertencia. Uma voz que, por momentos, passada a estranheza da sua primeira aparição, me fascinou. Não é todos os dias que a que dizem marcar a estabilidade de uma identidade muda. Aveludada e grave, com muito mais vigor do que a minha, parece ter percorrido o mundo, tem um ritmo largo como um contrabaixo que sustenta os rodopios de uma andorinha. Uma voz vagabunda, que nunca andou de barco que não fosse a remos, nem de comboio a pagar bilhete, não é voz que se passeie por salões, sabe a gravidade de um prazer gratuito, é com um cigarro no canto dos lábios que arrisca levar uma reprimenda. Talvez tenha que ser assim para aguentar os coices que recebe sem ir a correr procurar a mamã. Não me posso acostumar a ela, surpreendeu-me durante a noite como um fantasma, vai desaparecer do mesmo modo, dura como é, sem dar explicações a ninguém.

28 de nov. de 2022

 

Saí de casa num passo largo, tão largo que a rua se afunilava como um carril, rua que entregue a si mesma é de uma monotonia sem igual, estreita e curta, sem grandes prodígios nos prédios que me encaminham até ao centro da cidade. Surpreendi-me porque parecia decidido a ir ao encontro de qualquer coisa, mas não tinha nada que me esperasse em lugar nenhum. Tudo estava singularmente indiferente à minha passagem, temia que se ficasse quieto a rua começaria a ruir. No café tirei o casaco e a impaciência, sentei-me junto à janela onde me costumo sentar, na mesa ao lado, uma mulher com um caderno aberto, rosto apoiado na mão esquerda, rabiscava devagar como se as palavras lhe viessem de um lugar distante. Fiquei visivelmente perturbado, como uma corda afinada um tom acima, movia-me a custo, a luz transparente que entrava pelos vidros altos recortava o café em dois triângulos equilibrados, parava junto à minha mesa, deixando-a no lado sombrio, por momentos estávamos demasiado próximos e a uma distância incalculável. Talvez isto se deva ainda à impaciência que trouxe de casa, não vejo outra razão para me sentir incomodado por uma pessoa que não conheço, certamente se está a borrifar se hesito a pôr os livros do lado esquerdo ou direito da mesa. Claro que estava curioso pelo que escrevia no caderno, e, não me vou armar em duro, era uma bela figura a menos de três palmos de mim, não era a desconfiança que me atrapalhava, mas tudo aquilo que não conseguia verbalizar na altura. O cabelo negro atado, um caracol caído sobre a face rosada como um Peiot hebraico num rapaz imberbe, o pescoço longo e branco como um choupo, enquanto os olhos imóveis fixavam a ponta da caneta com a impassibilidade de um cirurgião. Lembro-me que, misturado ao aroma torrado do café, um perfume cítrico e adocicado dava a impressão de estarmos no exterior. A luz entrava pelas altas janelas como através de um bosque. O que escreveria no caderno? Talvez segredos inconfessáveis, ou a lista de compras a fazer, seja o que for, ficará consigo do outro lado do muro onde escrevi estas palavras.

27 de nov. de 2022

 Na orla do terreno, o arco-íris brilhante do óleo convencem-me que a morte não se veste de negro, mas, com um robe extravagante, é com estrondo e opulência que toca as vestes do mundo, teme que ninguém dê por ela. A exaltação deixa cores garridas por onde passa, o roxo aureolado de verde num rosto de tez clara, a argila prateada pelo fósforo dos fertilizantes, os berros acesos como holofotes, faces rubras de sangue, a dormência branca do álcool com os punhos cerrados. A fúria deixa sem terra o singular comércio dos discretos.

24 de nov. de 2022

 Um animal adormecido, com o dorso rijo e crestado, a chuva dá-lhe um ar de porcelana, diria morto, não fosse o susto que apanhei quando o tomei por tal, a vila move-se de um modo tão gradual que nos esquecemos dela. Estamos no tempo dos vapores, as janelas embaciadas, as nuvens obstinadas, os regatos fluentes pelas valetas, o cigarro que se acende para não pensar nos pés molhados. A água desce, corre com uma dedicação exímia para o fundo, mas o vapor, numa loucura difícil de contornar, vai para onde lhe dá o vento. Tempos espirituais, se o sopro ainda tivesse o peso que tinha para os velhos teólogos, obcecados por o enquadrarem, ficaram com ele emoldurado. Por aqui entranha-se na pedra, deixa-a fumegante e porosa, estende-se na colina à sua frente, uma miragem da lagoa que desapareceu, talvez seja assim que enleia sonho com sonho, espalhando farrapos sobre os montes até que alguém se lembre do que cá não está.

22 de nov. de 2022

 

Acontece andar às voltas sem que nada de novo me interpele, fechado na minha pequena cidadela, olho para o que me rodeia e não vejo nada. Na verdade, a cidadela não é minha, mas de um invasor que me sequestrou sem se preocupar com o consentimento. Um pensamento coloniza-me, deixa-me atado ao centro de um carrossel. A maioria das vezes é a caminhada que me salva do delírio. Em todo o caso, é sempre melhor andar, por mais encarcerado que esteja, a possibilidade de me assombrar com a passagem de um estranho pode levar-me a saltar os muros da fortificação. Apesar de ter crescido numa casa com fortes práticas religiosas, ou talvez por isso, tive sempre uma relação problemática com a ideia de pureza, não sei o que representa, se imaginar um lençol de linho acabado de lavar, imaculado, quer dizer... maculado (é o sem mancha que me é difícil de representar), manchado pela luz, pelo perfume do sabão, pelas pernas que se esfregam e o deixam liso e mais suave ao toque, manchado pelo peso dos sonhos e por todas essas coisas que não sei de onde vêm. O mais perto que estive de qualquer coisa imaculada, foi de noite, ao tentar dizer como surge e me veste, como se despenha por todas as aberturas, espessa, uniforme, como uma mancha que cresce sobre todas as outras, para a dizer teria de encontrar um negro mais brilhante, e quando acho que descobri uma nuance escura o suficiente, oiço um zumbido, uma melga que se intromete entre o breu e todas as vozes que fingia não ouvir, melhor do que nada, esse nada que se escapa sempre por mais fina que seja a malha do coador. E a melga? Uma aparição ex-nihilo, e o que faço? Arregaço a manga, meto o braço esquerdo fora dos lençóis acabados de lavar e espero, espero como um caçador experiente, que ela cometa o primeiro deslize.

20 de nov. de 2022

 

A chuva numa cortina obstinada, sem hesitações, ténue, afaga a terra numa demonstração de afeto, as pessoas passam por este véu cabisbaixas, num gesto que, se fosse despojado de interesse próprio, poderia ser um impulso de pudor ao entrever uma tal prova de amor. Apesar da hora, a luz tem uma insígnia noturna, justa, sem distinguir nada em particular, estende-se com o mesmo langor por todo o lado, como a chuva numa cova de coelhos, derrama-se no subterrâneo onde vivemos, aproxima o céu da terra do único modo suportável, sem trombetas nem rufos de tambor, num furor discreto e silencioso. Está um dia propício a esquecimentos, olhos fixos na janela, tanta coisa para fazer, mas os deveres sossegam sob este lençol, é uma compressa húmida na pele irritada, e nada se faz. A quietude, prenhe de sonhos, exala uma amnistia balsâmica. A janela, que normalmente desaparece na dinâmica exaltada do exterior, ganha um semblante de moldura, no seu interior, como um segredo revelado numa pintura, a chuva cheia de murmúrios enfeitiça a rua.

16 de nov. de 2022

 

Esborratado de carvão, o céu resguarda a vila com um cinzento mineral, a borraça ilumina a pedra, deixa-a viva e severa como um gume. Trago iodo no cabelo e o perfume dos cedros no corpo por ter tateado os mortos. Hoje, mais do que nunca, tenho de me juntar aos homens, ao borbulhar repetido dos murmúrios, fechar os olhos que abri de noite e encostar a cabeça ao ronronar das gentes do café. Passei demasiado tempo encostado aos gemidos da barriga e ao lascar da cabeça, podia ser muda a interioridade, tantos a procurar dar voz às entranhas e elas numa miríade de ruídos indiferentes à leitura, seja como for, as tripas que se fodam, se fizerem nascer um parágrafo que se sustente, que se torçam à vontade, ele que permaneça teso a marcar a presença de um desejo.