30 de mar. de 2022

 Os queixumes vivem sufocados na sua indefinição, se os tentássemos desenvolver, dar-lhes um corpo que os diferenciasse dos demais, desapareciam por si, o seu carácter de coágulo é contrário à explanação. Talvez por isso passem por algo natural, por serem um atrofio muscular que persiste em se retorcer sobre si. Queria dizer comum, não natural, pois, verdade seja dita, não sei o que natural queira dizer. Escrevo quase sempre contra o impulso de ir fazer outra coisa, o que me leva a desconfiar que este ofício não tem nada de natural. Natural é deitar-me na relva, ou noutro sítio que me acolha com ternura, e ficar a vigiar quem passa. As palavras metem-se no caminho, ou são elas que me metem a caminho? É difícil desfiar esta meada. Poderá ter sido o assombro frente a uma encruzilhada que suscitou o primeiro queixume, e, nessa altura, descobrindo um abrigo novo, começaram a passar aí a noite. Ganhava mais em escrever sobre o meu cão que dorme enrolado com o nariz debaixo do tapete. É o seu modo de se esgueirar do mundo, enquanto eu tenho de fechar os olhos para me subtrair à enxurrada de imagens. Os odores levá-lo-iam a correr até ao coração parar. Eu, fecho os olhos enquanto o indicador procura um buraco na fina trama da história que me permita o sono e a hesitação. Pois, do fervor não fica nada, tal é a sua paixão em destruir vestígios. Talvez por isso me dizia um mestre que quando se trata de procurar a verdade, a primeira coisa a desconfiar é dos sentimentos.

 

 

29 de mar. de 2022

Nalgumas manhãs mais foscas dou por mim a pensar nas cabeças dos que dormem sem hesitações. Saem de si como quem sai da cama e vão para rua, direitos como proas de navios. Vivem no topo dos montes, mesmo nas ruas mais estreitas. Os seus passos são notas precisas num caderno e os braços baloiçam alegres na aragem fria. A fragilidade dos dias é radiante, e na ilusão de um espelho baço, convidam-se para a festa onde acordaram.

25 de mar. de 2022

Se a estrada sobe ou desce, depende de tantas variantes que me parece ter descido subidas intermináveis. Conheço-me mais dividido do que indiviso, sei que atravesso o parque e me vejo a atravessa-lo enquanto penso noutra coisa noutro lugar. Por isso os meus planos ficam por ir até à rua que fica ali à frente onde me consolo com todos os outros que passam sem saber aonde vão. As mãos que pouso nas horas mortas parecem animais cansados que gostavam de ser bravos, só as conheço dormentes, fiéis a um capataz que se perdeu, raramente distantes ou distraídas. Talvez não as canse como devia, poderiam apaixonar-se pelo trabalho e irem para a sombra sonhar com o ócio que se estende como uma névoa sob o calor. Decepadas, dentro dos bolsos, são de outro corpo, alheias aos queixumes, enrolam-se nos trocos e nos papéis, não sabem nada do bem e do mal, por isso são hábeis em qualquer ofício.



22 de mar. de 2022

 Nunca andei tanto de comboio como na adolescência, mas a memória mais viva que tenho é de em criança ir até S.Martinho. A viagem começava no momento em que me davam a conhecer que íamos. Tudo o que era próximo e sólido deixava de estar ao alcance da mão, o quarto distanciava-se, a expectativa inundava-o e ficava extenso e salgado como o oceano. Para onde iriam os objectos que tanto me emocionavam e agora eram apenas indícios de um lugar que já abandonara? Não é este trânsito mais íntimo do que o que me agrada ou desagrada? Entrar na carruagem era uma dilatação dos sentidos, as árvores corriam para um desfiladeiro nas minhas costas e os desenhos traçados com o indicador sobre o meu sopro evaporavam-se. A velocidade era uma dimensão onde todas as coisas conspiravam e se deixavam reger por uma expectativa, evanescentes face ao seu poder encantatório. Do mesmo modo que os pequenos desenhos que fazia no vidro se volatilizavam, também a lagoa surgia do outro lado das dunas como se estas fossem de vapor. Nunca tive por certo a lagoa estar do outro lado do areal, sempre que aparecia estava fremente de novidade. As palavras procuram as coisas como animais bravios, estas são para cada um de nós tão diversas como as máscaras que usamos. As dunas eram para mim ampulhetas quebradas, minadas de cardos que ameaçavam os pés nus, eram gigantes adormecidos com cabeleiras de estorno ensopadas de sonhos.

                      Pode ser arte

17 de mar. de 2022

Acontecia cada vez com mais frequência, os dias acabavam estilhaçados, desmembrados, sem aliança possível, uma mão-cheia de palavras que reivindicavam que lhes desse uma ordem. Andava com elas na boca até diferenciar as peras das laranjas, os pêssegos das ameixas. Arrumo-as de modo provisório, sem fixar nada definitivamente, à custa de desmoronar a possibilidade de um encontro. Uma palavra que se afinca na companhia da mesma comitiva é como alguém que decidiu que as surpresas sobre si mesmo chegaram ao fim. O dia acabava assim encostado ao desfiladeiro sem nada que o pudesse resgatar para além de  meia dúzia de palavras às quais tentava agora dar a atenção que recusara durante o dia.

15 de mar. de 2022

 O dia parece ter sido abafado por uma frigideira ferrugenta, as coisas dormentes, privadas de sombra, jazem por metade em trânsito para outra existência. Um odor de carvão aveludado aproxima o cenário melodramático. A mulher da mercearia diz que é tempo de tempestade, custa-me a acreditar, as suas previsões têm sempre um punhado de sal a mais para arrepiar o pelo. Certo é que se o mundo fosse um animal diria para ter cuidado com o fígado, está inchado, amarelo e teima em não ver mais que um palmo à frente do nariz. Comprei-lhe umas bananas antes de ir à biblioteca, decidido a escrever algo de boa monta, já há uns dias que não o faço. Perdi-me nos livros até me fartar de ver os frutos dos outros, enquanto dormia sem um pensamento sequer. Fui comer uma banana junto à auxiliar que me disse estar esquisita como o tempo, perguntei-lhe o que isso queria dizer, engoliu em seco, não esperava a pergunta, falou por falar, como fazemos todos, provavelmente nem sabia o que sentia. -"estou meio enjoada filho..".- Desejei-lhe as melhoras e voltei para os livros como um salteador. Enjoada ecoava bem com a esquisitice, evocava damas prestes a desmaiar, outrora esquisitamente sensuais, agora apenas aborrecidas. Mesmo sem ideias, sentei-me a escrever, afinal se não tenho cabelo não ponho uma cabeleira para sair de casa.

                Pode ser uma imagem de 6 pessoas, pessoas em pé e ao ar livre

14 de mar. de 2022

  A rua empedrada parece dizer algo sobre os que a calcam para trás e para a frente. A cidade nunca me foi inteiramente familiar. As portas abrem sobre as ruas com surpresa. Fico na orla das gentes que passam, recordando que a família é um bando de escravos, e que a cidade nunca me foi inteiramente familiar. Tacteio as construções sem abandonar os espaços largos, as praças não rareiam por estes lados, e se não fosse o caso, teria o maníaco azul como telhado. Os homens são incapazes de viver num mundo que não tenham levantado e a cidade silencia tudo o que o contraria. Quando me acreditava inteiro queria viver nos bosques, seria devorado numa noite longa de verão, mas é nas ruas de pedra que o tempo tem onde se agarrar, escondo-me nas vielas temeroso como um assassino, as conversas pairam nas janelas como um varandim. Tardiamente descobri o prazer de me perder nas ruas que desconheço. Em miúdo, a cidade era um deleite doseado a conta gotas, visitava-a como quem vem ao mercado, ansioso por saber do mundo e dos seus artefactos. Hoje vivo as suas mutações como as do meu corpo, a luz baça e ferrugenta, os objectos perdidos, sem sombra, suspensos.

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Alex Katz
City Night
1998

13 de mar. de 2022

   Tinha perdido a cabeça. Não de um modo jubiloso, como quando entrava na noite a descoberto, e virava os objectos do avesso, nesses tempos era eu, com gulodice, que a entregava numa bandeja. Desta vez, tudo aconteceu de modo imperceptível, sem saber onde a pusera ou que guilhotina a amputara. Tinha a mania de andar às escuras pela casa, agora, não me atrevia a levantar sem acender a luz, tal era o medo de lhe pôr os pés em cima. Podia ter acordado sem ela... Não excluía a hipótese de um terrível acidente enquanto sonhava, conhecia casos de paralisia dos quais os pacientes não fazem ideia do que a originou. Poderia ter estado demasiado tempo deitado, e a vegetação, veloz e afiada, ter-me degolado. Os vizinhos, por modéstia ou comodismo, ao "bom dia, como vão?" respondiam sempre "tudo bem, obrigado!", consolidaram os seus hábitos de vez, e uma novidade deste calibre era demasiado para uma rotina tão rigorosa. Tinham caveiras alongadas e maxilares protuberantes, que sobressaíam ainda mais por não pararem de mascar. A minha casa estava limpa de espelhos. Foi um caminho longo até este despojamento. A renúncia do que me neutraliza é uma obsessão tardia e inconstante, é a minha única virtude, instável e hesitante. Os espelhos mutilam o mundo. Quando os olhava via apenas o meu rosto, tudo o resto se tornava numa ondulação circular à sua volta. Para olhar um espelho sem sentir esse corte frio e cirúrgico teria de ter o espírito guerreiro dos que conhecem os poderes encantatórios da imagem. Mas as imagens que me rodeavam eram pobres como a conversa de café, cheias de automatismos e trejeitos que fortalecem o senso comum. Queria ser um tipo consequente, não poderia criticar o meu cão por andar a por o focinho no lixo e ir-me olhar ao espelho quando chegasse a casa. O meu reflexo estava por todo o lado, mas de um modo vago e dissimulado, os espelhos, devido à minha fraca constituição, davam-me a ilusão de uma forma adquirida. Agora que não os tenho, posso pensar sobre o pressentimento que me guiava como se estivesse destinado a coisas grandiosas, pressentimento que me teria devorado, não fossem as interrupções, a timidez e reclusão. O que me vale é que não pensamos com a cabeça, por isso continuo as minhas divagações sem a interrupção desse apetrecho que julga poder viver separado do corpo. Há no seu enorme acervo de pormenores uma exaltação exagerada, que a deixa na soberba de o criador ter perdido mais tempo consigo do que com o resto do corpo. Salta fora do colarinho como um gladíolo com as suas múltiplas caras. Não admira que tanta gente se agarre à sua imagem com unhas e dentes, o que fariam se acordassem sem esse belo emblema? Estava perdido, os homens reconhecem-se pela cabeça. E eu agora era apenas uma grande corrente de ar.
       






 







8 de mar. de 2022

O ar parece contrariado ao permitir que os objectos se movam no seu seio. Entre os prédios desalinhados um punhado de homens de semblante carregado, retinam uns nos outros, assombrosos como espelhos, sem nunca ficar claro o que representam e o que fazem desaparecer. A cidade tem as suas flores, instáveis, suculentas, ardilosas na aparência de solidez, tão necessitadas como as do canteiro. Por vezes penso que agarrei a realidade por um cabelo, mas de imediato se sacode e me deixa desamparado com as minhas ficções. Os contornos de um homem são mais frágeis do que um gladíolo, vertical como uma espada, bulboso, de cabeça em espiga, quase sempre sem uma palavra que a ornamente. Pardacentos, os seus limites brumosos tendem a pernoitar numa sonolência sem sono. O contorno esbatido, bafiento, quebrado pelas intempéries, esconde e revela ao mesmo tempo. Quem se senta ao seu lado até que um esgar o diferencie do banco de jardim? A pele enrugada, seca, alheia, debaixo de um manto de neve, branco, impessoal, devastador.

 


7 de mar. de 2022

 Certas manhãs parecem vir de encontro a mim, como se acordar fosse cair. Caminho entre montras e cartazes, e não há senão manchas que se abraçam mais ou menos violentamente e tudo segue o encalço de uma derrocada, mas uma derrocada tem, pelo menos, uma direcção, mesmo que caia para cima. Neste trânsito, onde a vida corre sem outro mistério que o seu próprio despenhar-se, agarro-me sempre a um fio qualquer, ainda que o novelo esteja perdido debaixo do sofá. Um dia ganho passa por algo tão simples como uma discrição vigorosa de uma criatura alheia e envergonhada. A senhora da papelaria está mais presente porque a circundo de uma narrativa, senão passa tão depressa como a brasa pelo corpo do cigarro, e afinal as imagens que nos ligam são fumosas e esvoaçantes.

6 de mar. de 2022

 A água quieta na brutalidade do vidro enquanto atravessas a sala. Passas as soleiras com a gravidade que perdi. Ficaram-me indiferentes os espaços na dormência da preocupação. Atravessas a sala inundada de luz como uma ménade que dança entre limiares de diferentes realidades. A água quieta, ébria, no copo transparente, enquanto um rumor vai unindo superfície a superfície até à ilusão de proximidade, irremediavelmente longe de onde nos conhecemos.

5 de mar. de 2022

Tento não ir de imediato ao encontro do tráfego que entra pelas janelas. Sem cair no silêncio enaltecido pelos poetas, que me parece um bloco de granito, estranho e impenetrável, fico deitado com o barulho suave da máquina de lavar. Tempos houve em que me escondia dentro do roupeiro, talvez fugisse do espaço sem janelas das coisas acabadas. Encontrava um mundo sonoro, fantasmagórico, ouvia-me respirar, um barulho do estômago sobressaltava-me como uma porta que se abre de repente. O escuro acabava por se ajustar como uma máscara, nessa altura ficava estranhamente encostado ao que pensava. A maior parte das vezes levava um boneco de que gostava e tolerava mais tempo o desaparecimento. O boneco era um fio que me ajudava a percorrer o labirinto, ao encontro da fábula, sempre incompleta, que esperava ser narrada. Neste universo não havia horizonte para além do que me corria pela cabeça. A realidade oscilante das coisas era sensível como água que evapora. Acreditava conseguir atravessar a sombra armado apenas de uma peça do castelo que construíra. O roupeiro do quarto dos meus pais era embutido na parede, era grande o suficiente para cinco miúdos como eu. Tinha esconderijos por toda a casa, como a roupa de um explorador tem bolsos onde guardar instrumentos para atravessar a selva. O quarto dos meus pais não era o lugar onde procurava aconchego, era um lugar incerto e problemático. Um lugar onde entrava como um intruso. No roupeiro o cheiro macio e doce da roupa lavada equilibrava o silêncio, e eu entrava nesse silêncio como num lago com os meus bonecos por boia de salvação.