Os queixumes vivem sufocados na sua indefinição, se os tentássemos desenvolver, dar-lhes um corpo que os diferenciasse dos demais, desapareciam por si, o seu carácter de coágulo é contrário à explanação. Talvez por isso passem por algo natural, por serem um atrofio muscular que persiste em se retorcer sobre si. Queria dizer comum, não natural, pois, verdade seja dita, não sei o que natural queira dizer. Escrevo quase sempre contra o impulso de ir fazer outra coisa, o que me leva a desconfiar que este ofício não tem nada de natural. Natural é deitar-me na relva, ou noutro sítio que me acolha com ternura, e ficar a vigiar quem passa. As palavras metem-se no caminho, ou são elas que me metem a caminho? É difícil desfiar esta meada. Poderá ter sido o assombro frente a uma encruzilhada que suscitou o primeiro queixume, e, nessa altura, descobrindo um abrigo novo, começaram a passar aí a noite. Ganhava mais em escrever sobre o meu cão que dorme enrolado com o nariz debaixo do tapete. É o seu modo de se esgueirar do mundo, enquanto eu tenho de fechar os olhos para me subtrair à enxurrada de imagens. Os odores levá-lo-iam a correr até ao coração parar. Eu, fecho os olhos enquanto o indicador procura um buraco na fina trama da história que me permita o sono e a hesitação. Pois, do fervor não fica nada, tal é a sua paixão em destruir vestígios. Talvez por isso me dizia um mestre que quando se trata de procurar a verdade, a primeira coisa a desconfiar é dos sentimentos.
