13 de mar. de 2022

   Tinha perdido a cabeça. Não de um modo jubiloso, como quando entrava na noite a descoberto, e virava os objectos do avesso, nesses tempos era eu, com gulodice, que a entregava numa bandeja. Desta vez, tudo aconteceu de modo imperceptível, sem saber onde a pusera ou que guilhotina a amputara. Tinha a mania de andar às escuras pela casa, agora, não me atrevia a levantar sem acender a luz, tal era o medo de lhe pôr os pés em cima. Podia ter acordado sem ela... Não excluía a hipótese de um terrível acidente enquanto sonhava, conhecia casos de paralisia dos quais os pacientes não fazem ideia do que a originou. Poderia ter estado demasiado tempo deitado, e a vegetação, veloz e afiada, ter-me degolado. Os vizinhos, por modéstia ou comodismo, ao "bom dia, como vão?" respondiam sempre "tudo bem, obrigado!", consolidaram os seus hábitos de vez, e uma novidade deste calibre era demasiado para uma rotina tão rigorosa. Tinham caveiras alongadas e maxilares protuberantes, que sobressaíam ainda mais por não pararem de mascar. A minha casa estava limpa de espelhos. Foi um caminho longo até este despojamento. A renúncia do que me neutraliza é uma obsessão tardia e inconstante, é a minha única virtude, instável e hesitante. Os espelhos mutilam o mundo. Quando os olhava via apenas o meu rosto, tudo o resto se tornava numa ondulação circular à sua volta. Para olhar um espelho sem sentir esse corte frio e cirúrgico teria de ter o espírito guerreiro dos que conhecem os poderes encantatórios da imagem. Mas as imagens que me rodeavam eram pobres como a conversa de café, cheias de automatismos e trejeitos que fortalecem o senso comum. Queria ser um tipo consequente, não poderia criticar o meu cão por andar a por o focinho no lixo e ir-me olhar ao espelho quando chegasse a casa. O meu reflexo estava por todo o lado, mas de um modo vago e dissimulado, os espelhos, devido à minha fraca constituição, davam-me a ilusão de uma forma adquirida. Agora que não os tenho, posso pensar sobre o pressentimento que me guiava como se estivesse destinado a coisas grandiosas, pressentimento que me teria devorado, não fossem as interrupções, a timidez e reclusão. O que me vale é que não pensamos com a cabeça, por isso continuo as minhas divagações sem a interrupção desse apetrecho que julga poder viver separado do corpo. Há no seu enorme acervo de pormenores uma exaltação exagerada, que a deixa na soberba de o criador ter perdido mais tempo consigo do que com o resto do corpo. Salta fora do colarinho como um gladíolo com as suas múltiplas caras. Não admira que tanta gente se agarre à sua imagem com unhas e dentes, o que fariam se acordassem sem esse belo emblema? Estava perdido, os homens reconhecem-se pela cabeça. E eu agora era apenas uma grande corrente de ar.
       






 







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