14 de mar. de 2022

  A rua empedrada parece dizer algo sobre os que a calcam para trás e para a frente. A cidade nunca me foi inteiramente familiar. As portas abrem sobre as ruas com surpresa. Fico na orla das gentes que passam, recordando que a família é um bando de escravos, e que a cidade nunca me foi inteiramente familiar. Tacteio as construções sem abandonar os espaços largos, as praças não rareiam por estes lados, e se não fosse o caso, teria o maníaco azul como telhado. Os homens são incapazes de viver num mundo que não tenham levantado e a cidade silencia tudo o que o contraria. Quando me acreditava inteiro queria viver nos bosques, seria devorado numa noite longa de verão, mas é nas ruas de pedra que o tempo tem onde se agarrar, escondo-me nas vielas temeroso como um assassino, as conversas pairam nas janelas como um varandim. Tardiamente descobri o prazer de me perder nas ruas que desconheço. Em miúdo, a cidade era um deleite doseado a conta gotas, visitava-a como quem vem ao mercado, ansioso por saber do mundo e dos seus artefactos. Hoje vivo as suas mutações como as do meu corpo, a luz baça e ferrugenta, os objectos perdidos, sem sombra, suspensos.

https://www.tate.org.uk/art/images/work/AR/AR00012_10.jpg 

Alex Katz
City Night
1998

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