15 de mar. de 2022

 O dia parece ter sido abafado por uma frigideira ferrugenta, as coisas dormentes, privadas de sombra, jazem por metade em trânsito para outra existência. Um odor de carvão aveludado aproxima o cenário melodramático. A mulher da mercearia diz que é tempo de tempestade, custa-me a acreditar, as suas previsões têm sempre um punhado de sal a mais para arrepiar o pelo. Certo é que se o mundo fosse um animal diria para ter cuidado com o fígado, está inchado, amarelo e teima em não ver mais que um palmo à frente do nariz. Comprei-lhe umas bananas antes de ir à biblioteca, decidido a escrever algo de boa monta, já há uns dias que não o faço. Perdi-me nos livros até me fartar de ver os frutos dos outros, enquanto dormia sem um pensamento sequer. Fui comer uma banana junto à auxiliar que me disse estar esquisita como o tempo, perguntei-lhe o que isso queria dizer, engoliu em seco, não esperava a pergunta, falou por falar, como fazemos todos, provavelmente nem sabia o que sentia. -"estou meio enjoada filho..".- Desejei-lhe as melhoras e voltei para os livros como um salteador. Enjoada ecoava bem com a esquisitice, evocava damas prestes a desmaiar, outrora esquisitamente sensuais, agora apenas aborrecidas. Mesmo sem ideias, sentei-me a escrever, afinal se não tenho cabelo não ponho uma cabeleira para sair de casa.

                Pode ser uma imagem de 6 pessoas, pessoas em pé e ao ar livre

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