O ar parece contrariado ao permitir que os objectos se movam no seu seio. Entre os prédios desalinhados um punhado de homens de semblante carregado, retinam uns nos outros, assombrosos como espelhos, sem nunca ficar claro o que representam e o que fazem desaparecer. A cidade tem as suas flores, instáveis, suculentas, ardilosas na aparência de solidez, tão necessitadas como as do canteiro. Por vezes penso que agarrei a realidade por um cabelo, mas de imediato se sacode e me deixa desamparado com as minhas ficções. Os contornos de um homem são mais frágeis do que um gladíolo, vertical como uma espada, bulboso, de cabeça em espiga, quase sempre sem uma palavra que a ornamente. Pardacentos, os seus limites brumosos tendem a pernoitar numa sonolência sem sono. O contorno esbatido, bafiento, quebrado pelas intempéries, esconde e revela ao mesmo tempo. Quem se senta ao seu lado até que um esgar o diferencie do banco de jardim? A pele enrugada, seca, alheia, debaixo de um manto de neve, branco, impessoal, devastador.
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