22 de mar. de 2022

 Nunca andei tanto de comboio como na adolescência, mas a memória mais viva que tenho é de em criança ir até S.Martinho. A viagem começava no momento em que me davam a conhecer que íamos. Tudo o que era próximo e sólido deixava de estar ao alcance da mão, o quarto distanciava-se, a expectativa inundava-o e ficava extenso e salgado como o oceano. Para onde iriam os objectos que tanto me emocionavam e agora eram apenas indícios de um lugar que já abandonara? Não é este trânsito mais íntimo do que o que me agrada ou desagrada? Entrar na carruagem era uma dilatação dos sentidos, as árvores corriam para um desfiladeiro nas minhas costas e os desenhos traçados com o indicador sobre o meu sopro evaporavam-se. A velocidade era uma dimensão onde todas as coisas conspiravam e se deixavam reger por uma expectativa, evanescentes face ao seu poder encantatório. Do mesmo modo que os pequenos desenhos que fazia no vidro se volatilizavam, também a lagoa surgia do outro lado das dunas como se estas fossem de vapor. Nunca tive por certo a lagoa estar do outro lado do areal, sempre que aparecia estava fremente de novidade. As palavras procuram as coisas como animais bravios, estas são para cada um de nós tão diversas como as máscaras que usamos. As dunas eram para mim ampulhetas quebradas, minadas de cardos que ameaçavam os pés nus, eram gigantes adormecidos com cabeleiras de estorno ensopadas de sonhos.

                      Pode ser arte

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