3 de mar. de 2022

 Raramente consigo escrever quando estou demasiado alegre, a não ser que seja uma alegria descoberta pela escrita. Como se recusasse o que não dependesse do seu esforço, o que é um logro, pois, tantas vezes, de um vocábulo que anda em volta da língua, nasce qualquer coisa que não se espera. Portanto, deambular sem finalidade é sujeitar-me a que brote uma palavra boa no coração, como diz o salmo. Por vezes, parece que as ideias são demasiado densas e a cabeça demasiado leve. A custo as vejo vir à superfície e uma mínima distração deixa-me com a sensação de as ver afundar numa profundidade longínqua. Assim, uma página de lamúrias precede muitas vezes uma palavra que me mete num carril diverso e é uma alegria perder-me onde não conheço. Lembro-me do escuro ser um fascínio e uma protecção, debaixo da cama, das escadas, dos móveis, na despensa, lugares onde desaparecia no seio da sombra, e me deitava na intermitência do mundo.

                                     https://www.tate.org.uk/art/images/work/T/T12/T12882_9.jpg 

 
David Hockney 
Study for Doll Boy 
1960

 

1 de mar. de 2022

 Andei bastante tempo com um sentimento de revolta para com os eucaliptos, sem nunca me lembrar dos momentos felizes que tive entre essas árvores. Era para o meio delas que o meu pai fugia. Nos dias bons agarrava em mim e nos cães, e levava-nos com ele. O eucaliptal, na sua monotonia obsessiva, reiterava numa pobreza de meios a vontade insaciável de verticalidade. O solo amarelado era seco e arenoso. Cobras, coelhos e lagartos, a fauna que por vezes eclodia e me fazia sinal que a vida se esconde no deserto. Para os ver tinha de semicerrar os olhos como fazem os pintores, com sorte uma cobra atravessava o caminho, ou o estalar das cascas secas denunciavam um coelho menos cauteloso. O eucalipto é uma árvore de extremos, impiedosa, criada em ambientes violentos é uma raiz de fogo, chegou silente no porão das naus até rebentar como fogo de artifício pelo país. Não ia demorar muito até a sua obstinação chamar a atenção dos avarentos. De qualquer modo, era um sítio encantado quando era pequeno. O cheiro agudo, com traços de cânfora e menta, extendia-se como flechas pelo ar limpo e o meu peito parecia duplicar de tamanho, corria como um desvairado, passado pouco tempo já era eu que exalava o cheiro alimonado, tantas foram as folhas que amassara com as mãos. As silvas limitavam o prazer de tactear, eram a única coisa com força suficiente para rebentar em condições tão adversas. Eternas inimigas do meu pai, apareciam em todo o lado. Ele, armado de uma catana, cortava diligente, elas, teimosas como o demónio, bastava voltarmos para casa para reconquistarem o terreno ganho. Havia uma beleza fera naquilo tudo. Também o eucalipto é um bicho bravio, rebenta num abrir de mãos e debaixo da terra é a mesma fúria, o meu pai dizia que as raízes atravessavam os campos à procura de água. Para mim, a aridez era habitada de possibilidades sem fim, o seu aparente abandono, a presença de uma alteridade que exibe a sua fractura como um diadema.

                                        https://www.moma.org/media/W1siZiIsIjI0Nzk1MiJdLFsicCIsImNvbnZlcnQiLCItcXVhbGl0eSA5MCAtcmVzaXplIDIwMDB4MTQ0MFx1MDAzZSJdXQ.jpg?sha=0d201b693e18d470 

                                       

Louise Bourgeois
The Smell of Eucalyptus (#1)
2006

23 de fev. de 2022

 Penso que os quarenta são uma idade delicada. Talvez porque, devido a uma continuidade de sismos de intensidade reduzida, as fundações do teatro que até aqui vivi se verem danificadas. Olho para os que se dizem certos de si, e vejo apenas afinco em não olhar para os pés quando o chão tende a desaparecer. Como se, em vez de exprimir uma convicção, fosse um desejo, por vezes mesmo, uma prece o que enunciam. O trágico no ser humano é que os seus bastidores estão à sua frente e não numa arrecadação que não viria à superfície. Os quarenta são uma idade delicada porque as dúvidas irrompem de toda a parte e a capacidade de as calar nunca foi tão forte. Sou empurrado para longe da infância enquanto penso no que pode querer dizer maturidade. No dicionário leio "pico do desenvolvimento", um disparate que apenas com a penhora da verdade e uma boa dose de remendos se torna suportável. Já o termo económico, (ao contrário do que era expetável) não me diminui as questões, mas diz mais sobre o que sinto, o empréstimo que me fizeram atingiu o vencimento. A infância permanece um fruto que, verde ou maduro, tem do seu lado não sonhar apenas com o provável. Os quarenta são uma idade delicada porque a tentação de fingir que não se vê o fim começa a ganhar a forma ridícula de um palhaço num funeral.

                                        Pode ser uma imagem a preto e branco de 1 pessoa 


Herbert Bayer
Self-Portrait
1932, printed later

21 de fev. de 2022

A tentação de fugir ao que devo fazer por falta de descanso é enorme, mas não há uma relação directa entre o cansaço e a incapacidade de escrever. Enfrento a folha mais desarmado, e a mão move-se lenta e pesada como se o mar tivesse subido demasiado. A relação com o tempo ganha um espectro diferente para o insone. O tempo que dizemos perdido deixa de ser algo que sentimos correr como areia por entre os dedos, e passa a ser como um pêndulo onde se colocaram todos os pesos da balança e se despenha no precipício, deixando-nos imóveis à superfície. Esse grande dador de possibilidades transforma-se num tirano que faz apanágio de mostrar a ausência delas. Courbet dizia aos alunos para procurarem se não havia um tom ainda mais escuro do que o que encontraram, para indicarem a sua posição no quadro e começarem a modular a partir daí. O problema do insone é que esse ponto tende a desaparecer e um tom médio, que deveria apenas servir de transição de valores, passa a impor-se demasiado. Os limites esfumam-se, explicando os encontrões e as coisas que se partem.

                              Pode ser arte

                                 Adrian Stokes
                                        Still Life: Last Eleven (No. 9)
                                        1972

19 de fev. de 2022

 A primeira noite sem dormir começa com o esforço de me recordar do que costumo fazer para chamar o sono. Na segunda noite a procura esmorece, algo no corpo já se deixou conquistar pelo tumulto, apenas uma suspeita deixa a mente inquieta, uma qualquer verdade que se encontraria impedida de alcançar o destino, uma carta perdida. Espero, sem saber o quê ou porquê, uma entrega que não virá. O corpo fica quieto num desesperado heroísmo, e o pensamento acomoda-se ao primeiro osso que lhe dão. Diz que é da lua, e deita-se junto a mim como um pássaro na boca de um gato.

17 de fev. de 2022

 Despercebido, como o cêntimo que vai ficando no bolso das calças, o inaparente passa de mão em mão. O nevoeiro é o nosso domínio, o vapor que sobe das estradas pela manhã é mais denso do que eu. Ontem ouvi uma voz no gravador, era consistente, maciça, pareceu-me que a podia tactear, trazia algo de medular do corpo que habitava. E no entanto, era apenas um fio que ascendia, fumo espesso e quente de um cigarro que se encaracolava em direcção da janela. Na face que conheço há um traço que me sossega, uma âncora junto ao precipício, a voz, quando aparece assim, é um fósforo que se acende numa parede.



15 de fev. de 2022

Um caminhante é dança que baste para quem olha. Os ombros que cedem sucessivamente enquanto os braços balançam sem grandes pressas. As pernas são tesouras nas mãos de uma experiente costureira, mas o chão é na barriga que se sente como a ondulação numa baía. O milagre inaparente é que a cabeça vagueia sem ter de pensar nisso, porém se o espírito divaga sem se preocupar com as contracções, já estas são uma sinfonia que o predispõe à reflexão. Andar é um lugar que se procura e um não-lugar que se satisfaz. Ao contrário da corrida, onde o corpo parece ter de se agarrar aos seus limites, ao andar, o suave balanço cria uma repercussão sísmica que tende a libertar-se da sua medida. O imprevisto acontece geralmente de modo benfazejo ao que caminha. Nem que seja por ter tomado a decisão de andar, alegra-se de ter saído a passos largos. E depois, há os cabelos longos que saltam sobre os ombros como crianças num trampolim. No verão, o entusiasmo dos pilares de bronze que suportam a estrutura da mulher; no inverno, o lento ondear da roupa como um manto de água onde o olhar passa num veleiro. Não sei se todos se alegram quando andam, certo é que a boa disposição é fácil de entreter. Nem que seja por isso, de quase nenhum sustento precisa o caminhante.

12 de fev. de 2022

 Há um exercício de leitura que se assemelha à observação das nuvens. No café onde costumo ir há uma empregada que é domadora de leões, outra que se dedica à observação dos astros, e um homem já com bastante idade que é funambulista. Este, chega todos os dias à mesma hora e repete os mesmos gestos, coloca os livros no canto esquerdo da mesa e pousa as canetas paralelas aos livros. Pendura o casaco nas costas da cadeira perpendicular à sua e desce para pedir o café. Vai numa linha recta sem desviar o olhar para nenhum dos lados, sobre um fio que apenas ele vê. Uma vez tentei dizer-lhe bom dia, mas não respondeu. Essa hesitação teria feito com que se despenhasse no abismo.

11 de fev. de 2022

 

No topo do monte a erva tem menos de um palmo de altura e são poucos os dias em que o vento se acalma. Uns tufos de urzes mal semeados e um molho de caniços entre o turquesa e o verde água varejam a imaginação com fábulas do sul. Os caniços e os fetos têm na minha memória um lugar privilegiado. Se por algum motivo quisesse fazer um cenário para um sonho da minha infância bastaria uma dúzia de fetos e alguns caniços, e a água apareceria por si. Na minha escola primária havia um pinhal, costumávamos fazer um caminho que passava debaixo de uma figueira e terminava junto a um regato. Há alguns anos voltei a visitar a escola, levou-me meia dúzia de passos a fazer o pequeno caminho. Creio que não foi apenas por uma questão de escala que me pareceu menor, mas, porque antes atravessava mais mundo.
Um bando de pardais em volta de um monte de lenha, cintados pelo zumbido dos carros na autoestrada. Há sempre um equilíbrio por descobrir numa paisagem que se descreve. Dez páginas não são suficientes para descrever o monte da escola da Francisca, porém duas linhas deixam o lugar aberto e o vento que não o larga também entre elas pode soprar.
 
                                   Pode ser um grande plano

9 de fev. de 2022

 

Tentar pelo menos não ficar na mesma. Se ontem o tédio me ganhou terreno, tenho hoje que reaver o passo. O tédio de estar entediado é de todos o mais inofensivo, mais prejuízo traz o que de molde antigo vem mascarado. Se me apego a algo que gostei, sem pensar porque o faço, sem nenhum motivo senão combater o enfado, triste de mim, que não soube mudar de ânimo quando o dia mudou de corpo. Seguro um manequim como se de um homem se tratasse. Consigo imaginar um egípcio com o seu espelho de bronze a ver o mundo dourado. E percebo a imobilidade da morte como caroço da vida que o envolve. Os seus cabelos untados não eram seus mas de um cavalo que os tinha fortes e aprumados. Não me visto de linho, nem conheço rituais que me tirem a mancha enfadonha da rotina.

 

                                                 Pode ser uma imagem de uma ou mais pessoas e ao ar livre