14 de fev. de 2023

 

Tanto depende de um dia quente, de uma janela limpa, de um sorriso que se ergue como um peixe num anzol. Por vezes apenas um fio de água me mantém perto dos vultos por decifrar, a música suspende o hálito sonhador e ando debaixo de um manto esfarrapado, um céu que me voltou as costas. Mas o regato corre sem saber de mim, diz eis-me aqui, mesmo quando não estou. Tapo os ouvidos, o espaço encolhe-se como um braço no casaco, o som é mais forte do que a vista, Moisés tremeu como uma vara verde quando o senhor lhe falou, a música quando surge empurra-me monte abaixo. Talvez por isso não consiga ler com colunas nos ouvidos, sem o arrulhar de um pombo esfomeado, os passos curtos dos vizinhos, o riso que irrompe nas palavras como uma bolha de ar na superfície. E não me perco no que leio? talvez, estou na fronteira, sem poder entrar em nenhum país, o que leio passa por mim como quem muda de nação.

13 de fev. de 2023

 

Acordo tantas vezes longe do que está junto a mim que me questiono se não nasço dentro de uma velha matriz como uma traça que volta para o casulo que abandonou. Em frente à minha cama tenho uma pintura de uma colina. Ontem, ao redescobri-la na parede, lembrei-me que retrata o monte junto à escola primária onde andei, isso não me passou pela cabeça quando a pendurei, mas alguma coisa pensou em meu favor. Pendurei-a numa altura em que duvidava do que me era salutar. Entre os sete e os nove anos aquele monte ocupou o horizonte como um cinturão vivo, uma muralha que não precisava que a olhasse para guardar as forças que se opunham, na altura era pródigo em descartar ideais, talvez tenha sido por isso que a pendurei na parede.

7 de fev. de 2023

 

Entrei em casa sem interromper a noite, subi dois andares espantado com o desembaraço com que os pés acertavam nos degraus, a sombra do apartamento pareceu-me mais acolhedora do que a do espaço comum que atravessei excitado com a possibilidade de um vizinho me apanhar às escuras. Sentei-me e deixei que os olhos ganhassem a forma da noite, os móveis surgiram cobertos de cetim, normalmente, além de os embalsamar no âmbar da electricidade, ligo o rádio e deixo que a música se espalhe pelo vazio semelhante a uma mão que corre entre os lençóis. A sala permanecia secreta, como se esperasse que eu dissesse “vamos” para a montanha de sombra que se erguia entre nós. Ao deitar-me tenho a alegria frugal de ficar a tecer caminhos pela obscuridade antes do sono chegar, ao entrar na cama tenho a predisposição de quem salta de um ancoradouro para um barco, mas sentado na sala com os olhos abertos, desafio o espaço a desaparecer, ele pulsa devagar por uma imensidão de ecos.

4 de fev. de 2023

 

Ainda era cedo quando saí. O frio fazia-me crer que podia afrontar qualquer coisa, as minhas forças despontavam sem mostrar o desbarato da idade. A rua estendia-se como um tapete e mesmo os prédios disformes estavam entorpecidos pelo timbre soberano do azul. Recortado pelo bisturi afiado do inverno, parecia conseguir andar em meu redor. Passaria o dia a andar de um lado para o outro, mas estava prisioneiro de um ofício que não dava uso à energia que tinha, os dias livres raramente coincidem com o florescer da liberdade. Quando comecei este trabalho pensei que me safava com uma tramóia, lembrei-me que tinha um macaco que por vezes tomava a palavra, normalmente quando estava cansado ou se queria agradar a alguém, só tinha de o conseguir controlar e fazer que falasse por mim enquanto me refugiava a fazer o que gostava de fazer, era perfeito, educava-o, mostrava-lhe como bajular os clientes e estava feito. Era o vendedor mais empenhado que podia ter, nada lhe desviava a atenção das bananas que receberia pelo seu desempenho. No começo fiquei fascinado pela oportunidade, finalmente poderia evitar com alguma graciosidade as frases feitas e o triturar do mundo que as repetições me levavam a fazer, poderia concentrar-me na língua de ouro que imaginava poder reencontrar sem a preocupação pecuniária. Ensinei-lhe tudo o que sei, o sorriso contido, a servilidade sem esforço, a falsificação cuidadosa dos gestos amorosos. Perdi algumas coisas, o gosto pela imitação, a forma como procurava os gestos do outro, a lenta descoberta das coisas que lhe agradavam, encostei-me tanto a uma selvajaria sem mestre que desapareci. O pequeno macaco ia ficando cada vez mais à vontade, passava os dias sozinho, e em pouco tempo ia começando a alargar o território. Facilitei-lhe a vida desde muito novo, era preguiçoso e à menor coisa o punha a trabalhar, lembro-me de quando era adolescente me queixar da memória e fingir um esgotamento para que o meu macaquinho recorresse às recordações que tinha e as usasse no meu proveito, ele era um ás da lisonja e do malabarismo, quando o assunto era enaltecer-me ninguém usava os meus recursos melhor do que ele, enquanto isso entregava-me sem preocupações aos prazeres do divã, mais tarde tive algumas dificuldades em tomar as rédeas da carroça. Agora que tinha sido colocado numa situação de desespero lembrei-me de o ir acordar, calculei que seria uma saída airosa de um palco destinado ao fracasso, mas o pequeno primata tinha passado demasiado tempo a planear o regresso, e assim que teve oportunidade escreveu as suas leis sobre a porta da casa.

3 de fev. de 2023

 

Se não anotar nada, se não fizer um pequeno vinco onde o correr do dia hesite, ou pareça aos meus olhos que se demora um pouco, sou levado num sussurro que se despenha, no restolhar de folhas que desaparecem, no entanto, afeiçoei-me tanto a este cair que tudo parece inerte, longe, quieto, nos arredores da vida.

 

Antes de perceber onde termina a parede que tacteio antevejo um beco, a dúvida é uma mão que me segura a testa, nenhum espelho a mostra reflectida, a maioria das vezes engano-me propositadamente nas suas feições, só assim me vejo a começar alguma coisa, quando, na verdade, é sempre um começo que não se inaugura, flutua sobre a minha pretensão como um fantasma mais consistente do que o que vivo. Deste caminho não há saída, talvez haja outro caminho, talvez, não o consigo imaginar, um vendaval pode voltar tudo do avesso sem mexer uma única folha.

2 de fev. de 2023

 

O café estava ocupado pelo silêncio, o que, na verdade, é uma fartura de ruídos que se amontoam, só a máquina de café é uma orquestra de câmara, além disso, há os passos de raposa das funcionárias, as chávenas que caem nos pires num gesto de abandono, os motores abafados pelo vidro, apenas as vozes não se faziam ouvir. Alguém tinha aproximado mais as mesas do canto do que o normal, descobri-o quando uma mulher muito alta de cabelo negro se sentou ao meu lado, ficou tão chegada ao meu ombro que a imaginei deixar cair a cabeça, estava indefeso, apoiava-me numa trama miudinha que se estendia até à porta do café, era uma teia num sítio desabrigado, um pássaro inesperado deu cabo da frágil arquitectura. Da sua cabeça brotava um manto de carvão negro como uma noite sem lua. Os sons do café desapareceram, apenas a respiração debaixo da cabeleira escura se fazia ouvir. A minha atenção lutava com a armadilha inesperada que a capturou, tentei voltar os olhos para o papel, mas a posição em que me encontrava requeria um esforço absurdo, quanto mais tentava que a inquietação não se notasse, mais rígido e quieto ficava, como uma mosca que se debate sem sucesso, estava enrolado num tecido quente e pegajoso. Não conseguia pensar em nada senão em voltar a ter liberdade de movimentos. A sensação terna da proximidade desta mulher era uma camisola de lã num dia de agosto, a única saída era uma rendição absoluta ao seu domínio, mas estava decidido em fazer o que tinha vindo aqui fazer, agarrei num livro, deslizei os olhos por um par de linhas, bem podiam ser caracteres chineses, percebi então que estava proscrito de qualquer compreensão deste esforço, ficar irritado não me ia ajudar a contornar o problema. O relógio de parede dava nove horas, ela pousou a chávena tão lentamente que o pires não fez nenhum barulho, levantou-se, juntamente com os seus passos voltei a ouvir os passos das funcionárias e a máquina do café.

1 de fev. de 2023

 

Esguios como fumo, passam varados de inexistência, têm por vezes o encanto do desequilíbrio, de se aguentarem a custo, o que deixa pressentir um ritmo ganho numa luta desigual, pelo menos é o que aparentam, e isso é tão fugidio como o tempo que levam a dobrar a esquina. Quando me falam, abre-se uma cortina que contradiz quase sempre a impressão que tive. As vozes galgam o muro para dar a ver qualquer coisa mais antiga do que ele, uma saudação é um canto de melro que surge de um arbusto, depois, bastam três ou quatro frases para sermos da mesma espécie, mas normalmente é o desgosto e a preguiça o que se segue. A impaciência turva o acontecimento e o dia é estreito como o carreiro por onde passam, desaparecem vaporosos pela outra porta, sem nenhuma intuição que nos aproxime. Seja como for, sou um mercador, e eles passeiam-se entre os livros como num museu, cheios de espanto e de bocejos, posso apenas roubar uma cereja como um pardal.

31 de jan. de 2023

 

O quarto fechado, inconstante como uma adolescente, é uma máquina do tempo que não depende de mim para funcionar. A cortina corrida por metade empurra a noite para o canto onde estão as teias por desfazer, o céu é um prato de porcelana, a luz entra como uma espada dentro de água. Ontem, amestrada pelo cansaço, a desordem era serena, o ar ameno e abrigado, agora, tiro a custo o braço do edredão. As madrugadas não conhecem medo quando a noite é um mergulho, mas não encontro a estima com que me acolheu, é um sítio pequeno que insiste para que o abandone, despojado, pronto para depender mais do sonho do que da realidade, recebe-me disperso como uma névoa, bebe-me horas a fio e deixa-me no embaraço de quem se despe sem saber o que abandonou. Ontem era o ponto de gravidade para onde caía em desamparo, hoje um barco numa cidade por imaginar.

26 de jan. de 2023

 

Acordei com um espectro colado a mim, quieto como um membro dormente, houve tempos em que se assemelhava a um bicho astuto que me sondava como uma raposa, tocava-me quando dormia para descobrir se vivia e me caçar com deleite, agora, está ao meu lado como uma divisão fechada, não me abandona para nada, parece esperar que diga alguma coisa, um animal sem nome, dos que escaparam ao chamamento quando Adão lhes encostou a língua torrada que os atravessou como um raio. A que falo é uma agulha sem fio, custa-lhe segurar uma boca com um limão, talvez por isso, me esburaque o corpo já por si dividido. Estendo a minha rede a sul e o norte é o silvar do vento, se olho um ombro não vejo o outro, se falo do seixo do tornozelo calo-me sobre a cova do joelho, tudo o que me mostra inteiro é um mal-entendido.