7 de fev. de 2023

 

Entrei em casa sem interromper a noite, subi dois andares espantado com o desembaraço com que os pés acertavam nos degraus, a sombra do apartamento pareceu-me mais acolhedora do que a do espaço comum que atravessei excitado com a possibilidade de um vizinho me apanhar às escuras. Sentei-me e deixei que os olhos ganhassem a forma da noite, os móveis surgiram cobertos de cetim, normalmente, além de os embalsamar no âmbar da electricidade, ligo o rádio e deixo que a música se espalhe pelo vazio semelhante a uma mão que corre entre os lençóis. A sala permanecia secreta, como se esperasse que eu dissesse “vamos” para a montanha de sombra que se erguia entre nós. Ao deitar-me tenho a alegria frugal de ficar a tecer caminhos pela obscuridade antes do sono chegar, ao entrar na cama tenho a predisposição de quem salta de um ancoradouro para um barco, mas sentado na sala com os olhos abertos, desafio o espaço a desaparecer, ele pulsa devagar por uma imensidão de ecos.

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