4 de fev. de 2023

 

Ainda era cedo quando saí. O frio fazia-me crer que podia afrontar qualquer coisa, as minhas forças despontavam sem mostrar o desbarato da idade. A rua estendia-se como um tapete e mesmo os prédios disformes estavam entorpecidos pelo timbre soberano do azul. Recortado pelo bisturi afiado do inverno, parecia conseguir andar em meu redor. Passaria o dia a andar de um lado para o outro, mas estava prisioneiro de um ofício que não dava uso à energia que tinha, os dias livres raramente coincidem com o florescer da liberdade. Quando comecei este trabalho pensei que me safava com uma tramóia, lembrei-me que tinha um macaco que por vezes tomava a palavra, normalmente quando estava cansado ou se queria agradar a alguém, só tinha de o conseguir controlar e fazer que falasse por mim enquanto me refugiava a fazer o que gostava de fazer, era perfeito, educava-o, mostrava-lhe como bajular os clientes e estava feito. Era o vendedor mais empenhado que podia ter, nada lhe desviava a atenção das bananas que receberia pelo seu desempenho. No começo fiquei fascinado pela oportunidade, finalmente poderia evitar com alguma graciosidade as frases feitas e o triturar do mundo que as repetições me levavam a fazer, poderia concentrar-me na língua de ouro que imaginava poder reencontrar sem a preocupação pecuniária. Ensinei-lhe tudo o que sei, o sorriso contido, a servilidade sem esforço, a falsificação cuidadosa dos gestos amorosos. Perdi algumas coisas, o gosto pela imitação, a forma como procurava os gestos do outro, a lenta descoberta das coisas que lhe agradavam, encostei-me tanto a uma selvajaria sem mestre que desapareci. O pequeno macaco ia ficando cada vez mais à vontade, passava os dias sozinho, e em pouco tempo ia começando a alargar o território. Facilitei-lhe a vida desde muito novo, era preguiçoso e à menor coisa o punha a trabalhar, lembro-me de quando era adolescente me queixar da memória e fingir um esgotamento para que o meu macaquinho recorresse às recordações que tinha e as usasse no meu proveito, ele era um ás da lisonja e do malabarismo, quando o assunto era enaltecer-me ninguém usava os meus recursos melhor do que ele, enquanto isso entregava-me sem preocupações aos prazeres do divã, mais tarde tive algumas dificuldades em tomar as rédeas da carroça. Agora que tinha sido colocado numa situação de desespero lembrei-me de o ir acordar, calculei que seria uma saída airosa de um palco destinado ao fracasso, mas o pequeno primata tinha passado demasiado tempo a planear o regresso, e assim que teve oportunidade escreveu as suas leis sobre a porta da casa.

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