Tanto depende de um dia quente, de uma janela limpa, de um sorriso que se ergue como um peixe num anzol. Por vezes apenas um fio de água me mantém perto dos vultos por decifrar, a música suspende o hálito sonhador e ando debaixo de um manto esfarrapado, um céu que me voltou as costas. Mas o regato corre sem saber de mim, diz eis-me aqui, mesmo quando não estou. Tapo os ouvidos, o espaço encolhe-se como um braço no casaco, o som é mais forte do que a vista, Moisés tremeu como uma vara verde quando o senhor lhe falou, a música quando surge empurra-me monte abaixo. Talvez por isso não consiga ler com colunas nos ouvidos, sem o arrulhar de um pombo esfomeado, os passos curtos dos vizinhos, o riso que irrompe nas palavras como uma bolha de ar na superfície. E não me perco no que leio? talvez, estou na fronteira, sem poder entrar em nenhum país, o que leio passa por mim como quem muda de nação.
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