A Francisca saí às dezassete, quando sou eu que a vou buscar, costumo chegar uma hora antes. A primeira vez estava convencido de que me tinha enganado, pensava noutra coisa qualquer e quando dei por ela estava à porta da escola uma hora mais cedo. Na segunda vez, achei que era um desnorteado, que saltar de um feitiço para outro tem estes dissabores. Mas continuou a acontecer, e o que no começo me parecia um aborrecimento era de facto uma fachada que escondia o gozo que tinha nesta hora clandestina. O meu destino estava simultaneamente em suspenso e resolvido, e isso fazia com que o ar fosse fresco como num cume. Sem dar por ela uma espontaneidade infantil surpreende-me com coisas que não sabia que sabia. A irrupção de um saber que desconheço é, ao contrário de um saber acumulado, algo que me faz desaparecer, que me lança sobre a superfície da tarde semelhante à poeira que a esta hora se transforma em ouro sob os raios do poente. Neste espaço de tempo sou o folgado encontro de um “ainda não” com um “talvez”. Vim buscar a pequena, e isso dá um horizonte bondoso à espera, o tempo subtraído a esse encontro é uma espécie de recreio, entro nele como o flâneur na multidão. Ninguém me lançará o olhar carregado com que olham quem se entrega ao trabalho maduro do ócio, sou um pai à espera de uma criança, na verdade sou um caçador debaixo de uma pele de leão. Não há nada a fazer, o que acontece surge com a insígnia da graça. Um pequeno pardal afasta carumas na busca de uma semente, uma nuvem de mosquitos sobrevoa-lhe a cabeça como uma coroa, é um mensageiro, algo que apenas consigo perceber porque concilio o trabalhador e o vagabundo numa síntese imprevisível. Antes de conseguir decifrar o que me tem a dizer, foge para uma moita do outro lado da estrada, estava debaixo de um pequeno pinheiro que mal faz sombra ao buraco no cimento de onde irrompe, uma árvore, um pardal e uma disposição de adivinho, é suficiente. O contrabando do tempo é despido de frutos previsíveis, amanhã voltarei mais cedo.
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