2 de fev. de 2023

 

O café estava ocupado pelo silêncio, o que, na verdade, é uma fartura de ruídos que se amontoam, só a máquina de café é uma orquestra de câmara, além disso, há os passos de raposa das funcionárias, as chávenas que caem nos pires num gesto de abandono, os motores abafados pelo vidro, apenas as vozes não se faziam ouvir. Alguém tinha aproximado mais as mesas do canto do que o normal, descobri-o quando uma mulher muito alta de cabelo negro se sentou ao meu lado, ficou tão chegada ao meu ombro que a imaginei deixar cair a cabeça, estava indefeso, apoiava-me numa trama miudinha que se estendia até à porta do café, era uma teia num sítio desabrigado, um pássaro inesperado deu cabo da frágil arquitectura. Da sua cabeça brotava um manto de carvão negro como uma noite sem lua. Os sons do café desapareceram, apenas a respiração debaixo da cabeleira escura se fazia ouvir. A minha atenção lutava com a armadilha inesperada que a capturou, tentei voltar os olhos para o papel, mas a posição em que me encontrava requeria um esforço absurdo, quanto mais tentava que a inquietação não se notasse, mais rígido e quieto ficava, como uma mosca que se debate sem sucesso, estava enrolado num tecido quente e pegajoso. Não conseguia pensar em nada senão em voltar a ter liberdade de movimentos. A sensação terna da proximidade desta mulher era uma camisola de lã num dia de agosto, a única saída era uma rendição absoluta ao seu domínio, mas estava decidido em fazer o que tinha vindo aqui fazer, agarrei num livro, deslizei os olhos por um par de linhas, bem podiam ser caracteres chineses, percebi então que estava proscrito de qualquer compreensão deste esforço, ficar irritado não me ia ajudar a contornar o problema. O relógio de parede dava nove horas, ela pousou a chávena tão lentamente que o pires não fez nenhum barulho, levantou-se, juntamente com os seus passos voltei a ouvir os passos das funcionárias e a máquina do café.

1 de fev. de 2023

 

Esguios como fumo, passam varados de inexistência, têm por vezes o encanto do desequilíbrio, de se aguentarem a custo, o que deixa pressentir um ritmo ganho numa luta desigual, pelo menos é o que aparentam, e isso é tão fugidio como o tempo que levam a dobrar a esquina. Quando me falam, abre-se uma cortina que contradiz quase sempre a impressão que tive. As vozes galgam o muro para dar a ver qualquer coisa mais antiga do que ele, uma saudação é um canto de melro que surge de um arbusto, depois, bastam três ou quatro frases para sermos da mesma espécie, mas normalmente é o desgosto e a preguiça o que se segue. A impaciência turva o acontecimento e o dia é estreito como o carreiro por onde passam, desaparecem vaporosos pela outra porta, sem nenhuma intuição que nos aproxime. Seja como for, sou um mercador, e eles passeiam-se entre os livros como num museu, cheios de espanto e de bocejos, posso apenas roubar uma cereja como um pardal.

31 de jan. de 2023

 

O quarto fechado, inconstante como uma adolescente, é uma máquina do tempo que não depende de mim para funcionar. A cortina corrida por metade empurra a noite para o canto onde estão as teias por desfazer, o céu é um prato de porcelana, a luz entra como uma espada dentro de água. Ontem, amestrada pelo cansaço, a desordem era serena, o ar ameno e abrigado, agora, tiro a custo o braço do edredão. As madrugadas não conhecem medo quando a noite é um mergulho, mas não encontro a estima com que me acolheu, é um sítio pequeno que insiste para que o abandone, despojado, pronto para depender mais do sonho do que da realidade, recebe-me disperso como uma névoa, bebe-me horas a fio e deixa-me no embaraço de quem se despe sem saber o que abandonou. Ontem era o ponto de gravidade para onde caía em desamparo, hoje um barco numa cidade por imaginar.

26 de jan. de 2023

 

Acordei com um espectro colado a mim, quieto como um membro dormente, houve tempos em que se assemelhava a um bicho astuto que me sondava como uma raposa, tocava-me quando dormia para descobrir se vivia e me caçar com deleite, agora, está ao meu lado como uma divisão fechada, não me abandona para nada, parece esperar que diga alguma coisa, um animal sem nome, dos que escaparam ao chamamento quando Adão lhes encostou a língua torrada que os atravessou como um raio. A que falo é uma agulha sem fio, custa-lhe segurar uma boca com um limão, talvez por isso, me esburaque o corpo já por si dividido. Estendo a minha rede a sul e o norte é o silvar do vento, se olho um ombro não vejo o outro, se falo do seixo do tornozelo calo-me sobre a cova do joelho, tudo o que me mostra inteiro é um mal-entendido.

25 de jan. de 2023

 

Se me ponho a andar sem pensar, dou quase sempre por mim a ir de encontro a outros errantes, pergunto-me se não somos levados pelos querubins da ilusão, mensageiros perdidos que ao deixarem de saber porque vieram para este planeta se entretêm a conduzir os tolos por ruelas e jardins ao abandono. Ao reconhecerem um indeciso que joga aos dados nas bifurcações, assistem-nos com pequenos acenos, sinais incoerentes e disparatados que estimulam a nossa vontade de criar relações. A mim, que me vejo entre os mais desacertados dos colecionadores, fazem-me esquecer a musculatura mole que me envolve os ossos, e quando dou por ela estou debaixo de um pinheiro do outro lado do monte, há um contentamento inesperado em encontrar alguém que, levado pelas orelhas, se encontra sem nada melhor para fazer do que ouvir um pardal a resmungar. Os pequenos mensageiros saltam de atenção em atenção, quando alguém os abandona para se perder no seu tumulto interior, desesperam da falta de propósito e procuram de imediato outra alma predisposta a ser levada em devaneio.

24 de jan. de 2023

 

O empedrado da rua tem uma penugem verde que o sol distingue de manhã quando os raios rasam as pedras a contra pelo, mais forte que a vibração dos carros, sobe um apetite sem nome que revolve a terra com afã. Ando sobre um casaco do avesso num sonho por decifrar. A aparição esverdeada torna patente um amor da superfície por ela própria, uma vontade de estar onde a pele se encontra, mas ando sem saber de mim sobre a espuma da vegetação. No café, o braço de uma mulher sacode-me uma segunda vez, coberto de uma penugem loura, é um campo de fetos na clareira de um pinhal, os miúdos escondem como podem o assombro, entra-lhes nos poros como alecrim a arder numa fogueira, é uma vereda esguia sobre um terreno raso de tremoceiros.

20 de jan. de 2023

 

Balanço-me para a frente e para trás até que os pés caiam no regato que aqui passa. Estou perdido se acreditar que não me mexo, o candeeiro deixa-me as mãos torradas, cor de palha, faz do balcão uma canoa atolada num lamaçal. Balanço-me até perceber a velocidade com que a luz coalhada da porta se mistura com o pequeno farol, nervoso como um potro. Os dedos sobre o caderno esperam o alvoroço da cintilação. Se não me mexer estou perdido, por vezes são os lábios, outras são os pés, nunca me movo por inteiro. Baal Shem Tov fala do balanço de quem reza como alguém que se debate dentro de água. Estou do lado de fora no que toca a rezar, balanço-me no mercado mal iluminado, a cabeça bamba como uma palmeira a cortejar um pensamento.

18 de jan. de 2023

 

A rua é um pomo aberto antes das formigas lhe darem com o cheiro. O sol rasa as pedras e a toalha celeste retalha-se debaixo dos pés. O castelo está pendurado no monte como um esqueleto numa aula de anatomia, apenas o assobio do homem do lixo rompe o véu fantasioso que lhe cobre a ossada. É cedo, os lojistas chegam aos bochechos com os bolsos cheios de apetrechos, oiço-lhes a língua a bater nos dentes, os passos encolhidos, o fato apertado, a contração do possível deixa-os fora do motivo, também devo fazer rir o adversário, tal é a parafernália que trago para o combate, nunca sei porque porta escapo ao subterrâneo.

14 de jan. de 2023

 

A cabeça pende facilmente em direção ao solo, o crânio é demasiado pesado, é um terreno arenoso e cede naturalmente a reflexões graves, hoje o chão é um festim para os olhos entregues ao prazer de vadiar, o vendaval voltou tudo do avesso, encontro latas e papéis pela calçada, os homens e mulheres da cidade devem ter-se encontrado num festejo ancestral, num ritual que desconheço, mas que certamente os acompanha desde a origem dos tempos, agora dormem, exaustos, um sono despojado depois do sacrifício. Levanto a cabeça, o frio pica-me a face como se entrasse num campo verdejante, o ar desenha o caminho que faz até me chegar aos pulmões, tenho o rosto sóbrio, é um barco que corta o vento, uma foice que abre um trilho no meio do mato.

12 de jan. de 2023

 

Passo do quarto para a sala por um pequeno corredor que parece existir para que o ar não corra de uma divisão para a outra. A sala é o mais protegido dos compartimentos, com uma marquise à esquerda e um corredor à direita, nenhuma das paredes toca o ar salubre do exterior. No quarto giram ventos pela parede e os sonhos são seixos ao sabor da corrente. Tenho de me erguer para que aconteça alguma coisa, sacudo os braços e dou um par de passos antes de me sentar à mesa da divisão interior, tateio a madeira, é estável e recatada, pronta a desaparecer sob a toalha ou o que for que lhe ponha em cima, se receber o que vier com o pudor com que ela desaparece debaixo da folha de papel e sacudir os fantasmas como migalhas para o chão, talvez não me fique por tomar uma decisão, talvez seja a decisão errada, os erros são inevitáveis, como a corrente de ar que bate com as portas do corredor.