10 de set. de 2022

 

A sombra é uma costureira experiente que alinha retalhos uns com os outros, um manto de contradições sobre o qual caminho despreocupado. Tivesse a sua habilidade e desenhava a fruta com o perfume das mãos da vendedora e a vendedora pela cor das suas maçãs, temperadas pela sombra do chapéu, unem-se num aroma que se espalha pela praça. Ando no lado sombrio, submerso no sossego cinza da calçada, como se de um espaço diverso se tratasse, os fregueses agitam-se ao sol com os braços longos como ramos caídos sobre a água. Desocupo-me como não fazia há muito no tapete efémero, encostado aos sons que correm pelos beirais, à claridade que se espalha nos caminhos abertos pelos pés e pela cabeça, caminhos que me levam a um lugar que se desacerta deste, que se acomoda por vezes, sem significados, um lugar que caí, que se despenha. A sombra dá-me a ilusão que se chegam a tocar, que as coisas estagnam por momentos, que sossegam a fuga que empreendem, mas uma sombra oscila entre um poço e um abrigo, tanto me engole como me protege, e a vendedora, que mergulha as frutas na luz quando as entrega, cobre o rosto com o escuro como quem não saí casa.

3 de set. de 2022

 

O ar frio é mais revigorante do que café, faz-me crer que os pensamentos ficam agudos e mais próximos os alvos que procuram, talvez o tiro com arco não sirva bem o propósito do que quero dizer, se soubesse bem o que quero dizer. Há certamente quem passeie pelas suas ideias de forma decidida, saltando de pedra em pedra sem questionar se é sólido o sítio onde põe os pés, mas serão suas as ideias? As que me vêm não sei de quem são, aparecem frágeis como um pano puído, tenho de as pincelar com cera e deixá-las ao ar, quando o grande luzeiro se apaga espero que alguma sombra se grave no rosto esburacado, volto a olhá-las de manhã, agarro num punhado delas e vejo se as posso enlaçar com outra coisa que apanhe com a mão esquerda, se não for tomado por pensamentos graves, esses levam-me para longe de onde fervilha o vivo. Aristóteles disse que a vida, se era exuberante no reino vegetal, explodia nos animais, nós, que os copiamos há milénios, cobrimo-los com lençóis molhados para que os estilhaços não nos atinjam a cara, habituámo-nos à temperatura, e hoje quando falamos de nos copiarmos uns aos outros é com a cara esborratada de carvão de quem tenta ver alguma coisa com a ajuda do negro.

2 de set. de 2022

 

Já chegava à porta do prédio quando reparei que ainda estava em casa caído sobre a napa viscosa do sofá. Surpreendido com a agilidade com que as pernas desceram as escadas, abri a porta orgulhosamente, mas assim que me encontrei na rua deixei-me a percorrer o passeio ao abandono e refugiei-me no que deu à costa da travessia noturna, tinha tido um sonho típico de uma qualquer angústia que não queria afrontar. Ao aproximar-me da estação a azáfama trouxe-me de volta à coisa andante que, agora junto a outras que se cruzavam com ela, parecia ter entrado num acordo mais justo. As variações a que estou sujeito fazem com que fique por vezes tão contente de me encontrar como a um amigo que não via há tempos. Haverá alguma medida entre o corpo de hoje desconjuntado no sofá e o que ontem se mantinha uno como uma centelha à beira-mar? Claro que este último era amparado pelo ar salubre e pelas manchas rosas que tingiam a areia de um perfume sobrenatural, um timbre salmonado que deixava o horizonte trémulo como uma corda de guitarra.

28 de ago. de 2022

 

Domingo de manhã é um território de ninguém no bairro onde moro. São-me mais próximas as ruas desertas com a obscuridade, a imprecisão deixa-me confiar de um modo risonho nas más interpretações, e não sinto amputado o que espero da cidade. As mesmas ruas quando o sol desponta a um domingo mostram a incompletude da dança que não se chegou a fazer, passar na avenida a esta hora assemelha-se a encontrar um estrato geológico novo depois de um deslizamento de terras e não conseguir distinguir o aparecimento do novo da presença do que ficou subterrado, talvez não seja isso, há um véu sobre os edifícios, para além do silêncio que se estende até uma hora mais tardia no dia do senhor, uma indolência atmosférica, como se a cidade se recompusesse de um gozo noturno e vagueasse pelos sonhos gasosos da embriaguez. Tinha escapado ao remoinho, ou melhor, tinha sido rejeitado, empurrado para esta moleza terrosa sem ferramentas para descobrir o que acontecera, o que vejo eu de um corpo que sonha? Ténues sinais de vida, a respiração escancarada de um sono pouco profundo, a transpiração, uma opacidade constrangedora. É um dia de langor, onde a inclinação ao mais fácil está inscrita nas pedras e nos corações dos homens, assim seja.

27 de ago. de 2022

 

A noite enlaçou-se na minha barba e não me deixou dormir, por descuido não travei os avanços do arbusto, ainda ontem era um musgo suave, agora é um monte de tojos secos e aguçados. Não penso com afinco no decorativo, confio que ela tenha alguma ordem e contenção, mas apesar da aparência não a trato por tu, sei que pertence a outro mundo, quase imortal, desmesurado, passa-me entre os dedos como um regato, dá-me vertigens não parar por nada nem por ninguém. Se lhe cabe alguma virtude é legar-me a tarefa do corte, de lhe impor um limite. De resto, só lhe faço caso se floresce ou se alguma saia se prende nas pontas. Como se eu não chegasse, tenho ainda de acalentar este lume. Não preguei olho por sua causa, a senhora da noite ficou com o manto preso no arame farpado.

24 de ago. de 2022

 

O dia carente de luz e o meu espírito amputado são siameses. O que me safou foi a minha preguiça, ela, que normalmente me deixa pendurado em divisões empoeiradas, levou-me a conformar-me à invisibilidade circundante, e dei por mim entusiasmado com um dia pardacento que ia passar entre turistas excitados, na prática, lamento não os conseguir observar com atenção e perder a maioria do tempo a tentar dar trocos certos, acredito que aprenderia qualquer coisa, teria de andar ao seu lado, pois passam com o dedo no gatilho. Nos meus sonhos a porta giratória do café começou a rodar sozinha e as pessoas saiam disparadas para o meio da rua, iam-se amontoando até fazer uma barreira que dividia a rua. Parece-me que não me tenho sentado com ninguém o suficiente para o corpo ganhar o assombro que os corpos ganham quando estão quietos à minha frente. A disparidade tomou as rédeas dos meus dias, e entre o excesso de gente no trabalho e a míngua ao serão, onde nem a mim me encontro, fica a paz traiçoeira da boca fechada, ou como escreveu Lichtenberg "o seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro."

7 de ago. de 2022

 

Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.

2 de ago. de 2022

 

Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.

31 de jul. de 2022

 

O ar está quieto, tão quieto que desconfiei que não me corria pelos pulmões o lume desinteressado que o caracteriza. As árvores lado a lado, numa disposição cénica esburacada pelo valor evanescente do azul. A avenida do parque alonga-se como água que transborda de um lavatório, mas o que me enche de espanto é o murmurar das gentes que passam, atentos a este pequeno dilúvio que qualquer excitação faria passar despercebido. Uma pele de leopardo, a terra laranja tricotada pela sombra dos plátanos, dissimulada com o ardil do felino, é preciso ouvi-la para a ver, cheira a farinha torrada, ergue-se atrás do bater dos pequenos passos que correm no sentido do pelo, não digo isto num sentido animista, as coisas não precisam desse empréstimo de alma que se paga demasiado barato, mas sem a analogia como me conduziria pela terra? Lichtenberg escreveu num caderno que a palavra incomparável mostra o que se pode fazer das palavras no mundo. Que o ar quieto se move, que se despenha sobre nós como um remoinho, descobri-o no miradouro da foz, quando voltei a cabeça para baixo e olhei o horizonte de pernas para o ar, o mar agitava-se no lugar dos céus como se uma estrela se fosse despenhar sobre a terra.

27 de jul. de 2022

 

Nos dias que me arranco a custo da cama fico muitas vezes com a impressão de percorrer o lado mais alheio do lado de fora das coisas, seguro por um peso que tende para o sossego e dispensa qualquer aventura, o centro de gravidade desabou e comporto-me como um sempre-em-pé, inclinar-me em direção a algo é um esforço desmesurado, e aborrece-me muito não ter nenhuma inclinação. Resta-me o desequilíbrio provocado. Em miúdo voltava a casa apenas para tomar fôlego antes de dar a debandada, era lá fora que encontrava a minha razão de ser, nenhuma identidade me tinha quieto sobre si, hoje qualquer coisa permanece esquecida, tenho por força de me inclinar. É graças à inclinação que o deslize acontece, e é graças ao deslize que o embaraço aparece. É bom ficar embaraçado, é uma pedra de toque preciosa, tirando algumas situações é normalmente sinal que me defronto com algo sólido, e, além disso, obriga-me a mudar de posição. Quando não vejo nada, é o embaraço que mostra que me faltou o degrau debaixo do pé, e os instantes em que o corpo não se conforma são um estado de graça despercebido, são um parêntesis aberto que me suspende sobre o texto. Os montes fascinam-me por diversas razões, uma delas é a relação do declive com o estado amoroso, quando subo um monte inclino-me sobre ele como um amante, perco a soberba sem me submeter, procuro vencê-lo com o esforço alegre de quem se deixa para trás, depois descubro a bondade do chão onde me abandono, liberto da tensão de uma inclinação cortês.