O dia carente de luz e o meu espírito amputado são siameses. O que me safou foi a minha preguiça, ela, que normalmente me deixa pendurado em divisões empoeiradas, levou-me a conformar-me à invisibilidade circundante, e dei por mim entusiasmado com um dia pardacento que ia passar entre turistas excitados, na prática, lamento não os conseguir observar com atenção e perder a maioria do tempo a tentar dar trocos certos, acredito que aprenderia qualquer coisa, teria de andar ao seu lado, pois passam com o dedo no gatilho. Nos meus sonhos a porta giratória do café começou a rodar sozinha e as pessoas saiam disparadas para o meio da rua, iam-se amontoando até fazer uma barreira que dividia a rua. Parece-me que não me tenho sentado com ninguém o suficiente para o corpo ganhar o assombro que os corpos ganham quando estão quietos à minha frente. A disparidade tomou as rédeas dos meus dias, e entre o excesso de gente no trabalho e a míngua ao serão, onde nem a mim me encontro, fica a paz traiçoeira da boca fechada, ou como escreveu Lichtenberg "o seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro."
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