7 de ago. de 2022

 

Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.

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