27 de jul. de 2022

 

Nos dias que me arranco a custo da cama fico muitas vezes com a impressão de percorrer o lado mais alheio do lado de fora das coisas, seguro por um peso que tende para o sossego e dispensa qualquer aventura, o centro de gravidade desabou e comporto-me como um sempre-em-pé, inclinar-me em direção a algo é um esforço desmesurado, e aborrece-me muito não ter nenhuma inclinação. Resta-me o desequilíbrio provocado. Em miúdo voltava a casa apenas para tomar fôlego antes de dar a debandada, era lá fora que encontrava a minha razão de ser, nenhuma identidade me tinha quieto sobre si, hoje qualquer coisa permanece esquecida, tenho por força de me inclinar. É graças à inclinação que o deslize acontece, e é graças ao deslize que o embaraço aparece. É bom ficar embaraçado, é uma pedra de toque preciosa, tirando algumas situações é normalmente sinal que me defronto com algo sólido, e, além disso, obriga-me a mudar de posição. Quando não vejo nada, é o embaraço que mostra que me faltou o degrau debaixo do pé, e os instantes em que o corpo não se conforma são um estado de graça despercebido, são um parêntesis aberto que me suspende sobre o texto. Os montes fascinam-me por diversas razões, uma delas é a relação do declive com o estado amoroso, quando subo um monte inclino-me sobre ele como um amante, perco a soberba sem me submeter, procuro vencê-lo com o esforço alegre de quem se deixa para trás, depois descubro a bondade do chão onde me abandono, liberto da tensão de uma inclinação cortês.

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