26 de jul. de 2022

 

Uma meloa aberta ao meio, perfumada e suculenta, assim me parece a piscina. Exposta à vitalidade do verão uma grande banheira que nos deixa presunçosos de ter os elementos ao dispor. Os miúdos agitam-se como formigas no fruto maduro, ao seu redor o tempo derrama-se aos soluços, as cabeças deitadas deixam escapar caprichos sobre as toalhas, acreditam que o calor é um bálsamo contra o tédio, vestem-se com o calor. A cura difere conforme o paciente, uma rapariga com a mão na água cintila como um tacho de latão e espreita se encandeia alguém, um casal adormecido parece esperar que o desgosto se incendeie e consigam falar sobre o jantar sem um sabor a cinza na boca. Estávamos encurralados na mesma casa-de-banho, lado a lado, encostados à ilusão de estar acima da natureza, um bando de exilados que fingem ser familiares. Se conseguisse ler as pregas da toalha, talvez soubesse como se debate o corpo que mostra e oculta a ansiedade. Faço de conta que tenho alicerces, fico quieto, como se este borbulhar de vida não fosse um efeito da putrefação, um gás magnifico e inebriante que se liberta do manto silencioso.

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