Deitado com a janela aberta olho o tecto azulado pela lua, nada para além da experiência me garante que não olho o céu nublado, acredito ser o tecto como acredito que se rebolar me estatelo no chão, mas não me consigo mexer, o ar está parado e se a casa fosse mais leve descolava como um balão. Oiço, dois andares abaixo, passos impetuosos como cavalos a trote, as vozes entrelaçam-se em segredo, chegam-me apenas murmúrios, a vitalidade dos passos aliada com a fragilidade das vozes leva-me a pensar no urso de La Fontaine, demasiado forte para o gesto amoroso que queria fazer. Os murmúrios podem bem ser uma oração, mas as pernas que batem numa pulsação feroz estão mergulhadas na alegria. A noite cheira a aveia torrada e o bulício nocturno fervilha sobre o zumbido dos carros. Enquanto espero que o vento entre de surpresa pelo quarto, os ursos, carregados de ternura, vão desfigurar-se carinhosamente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário