Do outro lado da janela o mundo insiste em fazer-se notar, diria um amante que teme cair no esquecimento. O ar rarefeito deixa-me ouvir os carros na avenida, o horizonte está próximo, posso senti-lo no palato quando passo a porta do prédio, um sabor metálico mistura-se com a maresia que o grasnar das gaivotas amplia, rodam como aves de rapina sobre a estação de comboios. Morar junto à estação é ter uma mais-valia de promessa, uma reserva de expectativa ao alcance da mão. Para além de me ritmar os dias e as noites, a má qualidade da janela faz com que durma de orelhas na rua, por volta das cinco da manhã há um comboio que permanece a trabalhar enquanto lhe enchem o depósito, fica assim trinta minutos antes de sair rumo a Lisboa, esta semana não dei por ele, o que quer dizer que ando descansado, nota-se na facilidade com que me ponho a estalar os dedos, não pelas longas páginas de rabiscos inexistentes, a vitalidade faz-me descobrir ritmos no zumbido dos insectos, nos passos da vizinha, no contraste de cores que o sol agudo põe em confronto. Nestes dias, em que a boa disposição me leva a encantar com qualquer coisa, partiria de boa mente numa carruagem de segunda classe, mas tenho de aproveitar a energia para pensar nas coisas que deixei paradas, senão restam-me os dias partidos em que oiço os comboios de madrugada. Nada disto é certo, por vezes o esforço de ficar quieto num dia inclinado ao fervor é maior que o esforço de concentração num dia de noite amputada. Apesar de não me regalar com os motores às seis da manhã, os comboios são bichos bravos carregados de incerteza. O pequeno comboio que saí às seis da manhã, imagino-o cheio de vida, trabalhadores que partilham o pão e palavras cheias, entusiasmados, capazes de bradar aos céus e olhar para o outro com a face iluminada, imagino-o, pode ir vazio, mas como me tira o sono, gosto de o pensar revigorante, mesmo nos momentos delicados, vejo um homem que admira o mover de mãos de uma mulher que prende o cabelo, que se demora nas linhas dos braços e nas costas soalheiras, e desse pequeno gesto concluí sobre a fartura da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário