23 de jun. de 2022

 Não ponho de imediato os óculos quando acordo, deixo-me ficar na paz míope, sem sobressaltos, as coisas diluídas umas nas outras, é um bom estágio para uma transição branda da selvajaria de onde venho. Por outro lado, deixo o grande conformista, falo do encenador que me habita, mais duvidoso, sem conseguir montar num arroubo o teatro que conhece. Deitado, espreito o pequeno fulgor laranja que junto ao parapeito verte para o quarto, lembra-me uma pintura que os meus pais tinham na sala, o tesouro, costumava chamar-lhe, retratava uma cena piscatória junto à costa, na falésia uma gruta resplandecia como se guardasse o sol no interior, os barcos içavam as redes indiferentes ao luzeiro que vinha da caverna; passei horas a imaginar o que estaria no interior, agora, olho para o rasgão alaranjado da janela e espero sempre que o dia me prometa mais do que o dia, mas sei que nada tenho a esperar, senão o tempo que lhe roubo antes de pôr os óculos, assim como não esperava nada quando me sentava junto ao quadro na sala dos meus pais.

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