22 de jun. de 2022

 Apesar da repulsa e hesitação, arregacei a manga e com o polegar esquerdo entre os dentes deixei a mão direita furar a gelatina seca que cobria o tanque, a água morna e acetinada fez-me retirar o braço num repente, mas tinha de o fazer, já demasiadas vezes, ao voltar do trabalho, me imaginei a mergulhar neste tanque e escapar de uma rotina cada vez mais apertada, de qualquer modo, não sou tolo, não me vou atirar para um tanque de águas paradas com dois metros de largo. Primeiro ponho lá o braço, depois, se não ficar com alergia, logo penso no mergulho. De onde virá a fascinação com o retângulo verde onde o céu se reflecte de um modo falso e distorcido? Parece desprezar o mundo, numa combustão entre a vida e a morte que me perturba. Também eu sou falso e distorço o que me aparece. Não consigo fazer frente à decomposição sem atirar imagens para a fornalha. Lembro-me de ter visto, há dias atrás, um ouriço morto, a empatia com o pequeno bicho transformou-se noutra coisa quando me aproximei e vi que era devorado por formigas, centenas, umas sobre as outras num festim que me fez recuar como quem quer voltar a adormecer. No entanto, penso em atirar-me para dentro do tanque, principalmente nos dias em que a vida parece verosímil, quando plano sobre ela como quem espera estatelar-se.





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