Andava devagar, apareceu à minha frente vindo da estação, tinha a face embaçada de quem percorre uma grande distância sem que o espírito se mova. Os ombros pareciam desencaixar-se com os solavancos dos passos, como se pequenas fracturas lhe quebrassem o equilíbrio articulado dos membros. Andei no seu encalço bastante tempo, revelava uma série de desamizades com o que o rodeava, um tremor destacava-o dos que passavam por ele e se moviam com o desembaraço de uma corda que se sacode. Esta fragilidade fez-me segui-lo sem pensar que o fazia, era uma força, bem vistas as coisas, uma força que apenas se reconhece em alguém que começou a ceder ao desaparecimento. Entre nós havia uma névoa, como o branco esponjoso entre a casca e os gomos do limão, parecia crescer e tornar-se espessa com o silêncio. Trazia qualquer coisa desse outro reino que se perde na obscuridade, como a pobreza extrema leva os olhos a desviarem-se passava despercebido entre os que se devoravam. No entanto, achava-o familiar, como se me visse depois de anos à procura de outra coisa, olhava a sua pele seca e avermelhada, o cabelo cinzento e ralo, muito mais alto do que eu, perto dos sessenta anos, enquanto eu me recuso a abandonar os vinte. Não deixava qualquer reflexo nas montras que espelhavam o resto da rua, fazia parte de mim como um ladrão que recolheu os dias que deixei ao acaso.
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