Sem que saiba como, o estorvo que ontem me atirava ao chão desatou-se sem grande alarme. Os plátanos marcam-me os passos numa cadência rara, caio com a avalanche copiosa dos cabelos que vogam à minha frente e galgo pelo ar como um papel que se incendiou. A praça está loira e almiscarada, uma mulher inchada e lustrosa como um pêro leva uma cesta de legumes debaixo do braço, diria um gigante com uma floresta. Num instante a praça enche-se, mulheres enormes, perfumadas, ciprestes altos com pequenos homens entre os ramos, outras curvadas com um cordel no indicador fazem saltar os homúnculos a seu bel-prazer, guardam-nos nos bolsos ou nos sacos com as verduras. Procuro fugir para não ser pisado como uma formiga, entre as pregas de uma saia que se abre como uma sebe e os calcanhares doces como um melão, contorno colunas e cestos enormes de vegetais. Ofegante, como quem desce um monte que não se lembra de ter subido, escapo-me por uma viela ao abandono. De que me serve a alegria com que acordei?
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