Saí de casa como quem se quer livrar de uma pilha de destroços. Sentei-me no banco onde nunca ninguém se senta, para além daqueles que nunca ninguém vê. Os pombos andam em círculos à minha frente, sacodem a cabeça num ritmo aprumado como se realizassem um ritual. A cerimónia foi interrompida por uma mulher que lhes devolveu alguma da dignidade que perderam aos olhos dos homens, parou o carrinho de bebé encostado ao arrulhar dos sacerdotes e começou a sussurrar aos ouvidos da criança frases que cortejavam as aves encardidas como se acabassem de sair das mãos do criador. Fiquei quieto a ver a fiada amorosa que se despenhava no ouvido do sonhador e dei graças por ninguém me ver neste banco onde ninguém se senta. Por vezes assemelho-me a um pescador que perde o ânimo enquanto planeia onde ir e que material levar, e quando finalmente tem tudo preparado diz para consigo que o tempo não agoira peixe na costa. Entretanto, passou um casal que não conseguia esconder o desamparo, o modo como se asseguravam da realidade dos outros, desbaratando o verbo ser como quem se esforça por vedar todos os buracos de um passador, não os deixava tirar os olhos do fio que seguravam. Não tenho nenhum sentido practico, e apesar de o tempo se escapar com uma agilidade que inveja os melhores acrobatas, ainda me posso sentar e ficar sem ser visto a ponderar se os pombos aparecem ou não nos hieróglifos.
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