31 de jul. de 2022

 

O ar está quieto, tão quieto que desconfiei que não me corria pelos pulmões o lume desinteressado que o caracteriza. As árvores lado a lado, numa disposição cénica esburacada pelo valor evanescente do azul. A avenida do parque alonga-se como água que transborda de um lavatório, mas o que me enche de espanto é o murmurar das gentes que passam, atentos a este pequeno dilúvio que qualquer excitação faria passar despercebido. Uma pele de leopardo, a terra laranja tricotada pela sombra dos plátanos, dissimulada com o ardil do felino, é preciso ouvi-la para a ver, cheira a farinha torrada, ergue-se atrás do bater dos pequenos passos que correm no sentido do pelo, não digo isto num sentido animista, as coisas não precisam desse empréstimo de alma que se paga demasiado barato, mas sem a analogia como me conduziria pela terra? Lichtenberg escreveu num caderno que a palavra incomparável mostra o que se pode fazer das palavras no mundo. Que o ar quieto se move, que se despenha sobre nós como um remoinho, descobri-o no miradouro da foz, quando voltei a cabeça para baixo e olhei o horizonte de pernas para o ar, o mar agitava-se no lugar dos céus como se uma estrela se fosse despenhar sobre a terra.

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