Domingo de manhã é um território de ninguém no bairro onde moro. São-me mais próximas as ruas desertas com a obscuridade, a imprecisão deixa-me confiar de um modo risonho nas más interpretações, e não sinto amputado o que espero da cidade. As mesmas ruas quando o sol desponta a um domingo mostram a incompletude da dança que não se chegou a fazer, passar na avenida a esta hora assemelha-se a encontrar um estrato geológico novo depois de um deslizamento de terras e não conseguir distinguir o aparecimento do novo da presença do que ficou subterrado, talvez não seja isso, há um véu sobre os edifícios, para além do silêncio que se estende até uma hora mais tardia no dia do senhor, uma indolência atmosférica, como se a cidade se recompusesse de um gozo noturno e vagueasse pelos sonhos gasosos da embriaguez. Tinha escapado ao remoinho, ou melhor, tinha sido rejeitado, empurrado para esta moleza terrosa sem ferramentas para descobrir o que acontecera, o que vejo eu de um corpo que sonha? Ténues sinais de vida, a respiração escancarada de um sono pouco profundo, a transpiração, uma opacidade constrangedora. É um dia de langor, onde a inclinação ao mais fácil está inscrita nas pedras e nos corações dos homens, assim seja.
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