2 de set. de 2022

 

Já chegava à porta do prédio quando reparei que ainda estava em casa caído sobre a napa viscosa do sofá. Surpreendido com a agilidade com que as pernas desceram as escadas, abri a porta orgulhosamente, mas assim que me encontrei na rua deixei-me a percorrer o passeio ao abandono e refugiei-me no que deu à costa da travessia noturna, tinha tido um sonho típico de uma qualquer angústia que não queria afrontar. Ao aproximar-me da estação a azáfama trouxe-me de volta à coisa andante que, agora junto a outras que se cruzavam com ela, parecia ter entrado num acordo mais justo. As variações a que estou sujeito fazem com que fique por vezes tão contente de me encontrar como a um amigo que não via há tempos. Haverá alguma medida entre o corpo de hoje desconjuntado no sofá e o que ontem se mantinha uno como uma centelha à beira-mar? Claro que este último era amparado pelo ar salubre e pelas manchas rosas que tingiam a areia de um perfume sobrenatural, um timbre salmonado que deixava o horizonte trémulo como uma corda de guitarra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário