O ar frio é mais revigorante do que café, faz-me crer que os pensamentos ficam agudos e mais próximos os alvos que procuram, talvez o tiro com arco não sirva bem o propósito do que quero dizer, se soubesse bem o que quero dizer. Há certamente quem passeie pelas suas ideias de forma decidida, saltando de pedra em pedra sem questionar se é sólido o sítio onde põe os pés, mas serão suas as ideias? As que me vêm não sei de quem são, aparecem frágeis como um pano puído, tenho de as pincelar com cera e deixá-las ao ar, quando o grande luzeiro se apaga espero que alguma sombra se grave no rosto esburacado, volto a olhá-las de manhã, agarro num punhado delas e vejo se as posso enlaçar com outra coisa que apanhe com a mão esquerda, se não for tomado por pensamentos graves, esses levam-me para longe de onde fervilha o vivo. Aristóteles disse que a vida, se era exuberante no reino vegetal, explodia nos animais, nós, que os copiamos há milénios, cobrimo-los com lençóis molhados para que os estilhaços não nos atinjam a cara, habituámo-nos à temperatura, e hoje quando falamos de nos copiarmos uns aos outros é com a cara esborratada de carvão de quem tenta ver alguma coisa com a ajuda do negro.
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