10 de set. de 2022

 

A sombra é uma costureira experiente que alinha retalhos uns com os outros, um manto de contradições sobre o qual caminho despreocupado. Tivesse a sua habilidade e desenhava a fruta com o perfume das mãos da vendedora e a vendedora pela cor das suas maçãs, temperadas pela sombra do chapéu, unem-se num aroma que se espalha pela praça. Ando no lado sombrio, submerso no sossego cinza da calçada, como se de um espaço diverso se tratasse, os fregueses agitam-se ao sol com os braços longos como ramos caídos sobre a água. Desocupo-me como não fazia há muito no tapete efémero, encostado aos sons que correm pelos beirais, à claridade que se espalha nos caminhos abertos pelos pés e pela cabeça, caminhos que me levam a um lugar que se desacerta deste, que se acomoda por vezes, sem significados, um lugar que caí, que se despenha. A sombra dá-me a ilusão que se chegam a tocar, que as coisas estagnam por momentos, que sossegam a fuga que empreendem, mas uma sombra oscila entre um poço e um abrigo, tanto me engole como me protege, e a vendedora, que mergulha as frutas na luz quando as entrega, cobre o rosto com o escuro como quem não saí casa.

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