As moscas são dos bichos mais bravos que conheço, se nos entram curiosas pelas janelas não é de ânimo leve que nos abandonam. Batem com os olhos no vidro até lhes entrar o azul no corpo. Passados séculos de tortura e morte refinadas pela indústria, amam os homens de modo incondicional. Nervosas, como todos os grandes amantes, destemidas e imprudentes, arriscam tudo para encostar os pés cerdosos como um urso na pele rosada pelo sol. Não suportam ver-nos quietos, e usam tudo ao seu alcance para que demos sinais de vida, mesmo que seja a custo da sua. Uma libido impiedosa rege a sua breve passagem, por isso despontam no calor, feras do verão, têm à morte um desprezo sem fim. Por vezes, moribundas, perdem-se num decote aberto como um cortinado ou noutro lugar pardo e solitário, mas em vida é a luz que as alucina. Foi talvez ao admirá-las que Cravan se apercebeu ter mais mérito quem descobre o mistério na luz do que quem o descobre na sombra, pugilista enamorado devia vê-las com gosto nos seus combates mortais.
28 de mai. de 2022
26 de mai. de 2022
O meu quarto tem uma parede curva que acompanha a travessa do outro lado, é, por assim dizer, o ponto doce do lugar, leva a aragem da janela sem interrupção até à cabeceira da cama. Por vezes penso que é aí que os meus sonhos se arredondam, onde se emaranham de tal modo que não encontro a saída do labirinto. As pinturas que tenho na parede estão a uma altura idiota, aproveitei dois pregos que já lá estavam e ficaram a dois palmos do tecto, fazem-me sentir um intruso num quarto de um gigante. A sensação de entrar no quarto de um desconhecido repete-se com alguma frequência, chegada a hora de ir para a cama, deixo de reconhecer as minhas coisas. O cortinado cinza-rato corta-me o lampejo da rua, e, sem nada que me engode os olhos, entro num mundo sonoro, acanhado, onde a pobreza de vestígios me deixa encostado à imaginação. É um quarto despojado, mas sem o desalento de um quarto de hotel, apenas uma hesitação, um pensamento que se enrola na curva da parede, me faz entrar na noite como numa sala de espera, fico colado ao pulso de tempo, um tambor maníaco que não me deixa escapar impune. A possibilidade de me escapar é um dos maiores capitais que disponho, lembro-me de quando me fazia de surdo, era a minha forma de me manter sur le motif, perto da mutação que tanto perturba os homens. Fazer greve era nos dias bons uma maneira de acossar mundos que desconhecia.
24 de mai. de 2022
19 de mai. de 2022
13 de mai. de 2022
7 de mai. de 2022
6 de mai. de 2022
28 de abr. de 2022
25 de abr. de 2022
Estava livre... parei um minuto a pensar como este adjectivo se inclina a desaparecer no que se segue. No sopé da serra, entre oliveiras e carvalhos, os pequenos vasos enchem-se de pasmo. Sento-me, apalermado pelo almoço, entre fetos, sardinheiras e alguns cravos. O calor veste-os com um manto que me deixa tocá-los sem ter de me aproximar. Por momentos, como um líquido que se escapa por uma fenda, desapareço no verdor do tempo, que na sua constância parece desdenhar da minha vulnerabilidade. A obsessão das folhas no reino vegetal repercute-se num cântico de pequenas variações, uma arte da fuga que apenas se interrompe quando me chamam para lanchar. Tinham passado duas horas, revolvera os vasos na procura de uma palavra que permanecera na ponta da língua. Os que passavam na rua, que graças a deus é pouco movimentada, olhavam-me como se fosse uma avestruz, a flora devia ter-me dado uma aparência pouco humana. Não fossem estes pequenos raptos tornar-me-ia rígido como uma cepa velha. As coisas, numa irresolução remota, estilhaçada, não me permitem ficar quieto por muito tempo. Se fechar os olhos, a orla do bosque aproxima-se da casa, piscos, chamarizes e chapins tecem uma teia de sons que me ampara o desequilíbrio sem me deixar afundar na febre silvestre. Teria de ser alguém bastante dotado e livre de preocupações para conseguir escrever num estado febril, só consigo dizer algo se me for concedida a serenidade para o fazer, fico livre...
