As oito da manhã são tímidas e bondosas como um terreiro. A luz ainda rasante levanta os edifícios de improviso, e se sair da cama sem cuidado esbarro com uma fachada sadia e inquieta que ontem me parecia ao abandono. A pequena brinca sem pressa, paira sobre o tempo, certa de que é mais importante equilibrar um papel sobre a caneta do que comer os cereais. Saio de casa desajustado com a nitidez, imerso num ajuste de contas com a obscuridade. O vão das escadas cheira a cenoura de um bronzeador que me leva para junto das costas sardentas de uma mulher. Na rua, um casal arrasta os miúdos como se fossem perder o autocarro, estes, estalam os dedos um do outro num jogo que não consigo perceber, passam indeléveis pela mutação, habitantes dos dois reinos, sem poiso fixo num ou no outro lado. Porque se submeteriam às medidas que impomos quando o sol se ergue? Vou perdendo tacto do que me rodeia como um comboio que acelera, e a mim, como ao Cesário, o que me rodeia é o que importa.
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