7 de mai. de 2022

 

A maior parte do tempo entretenho-me nos limites que julgo razoáveis. Um limite é um caminho, não necessariamente um mau caminho, eliminar alguma coisa, para além da brutalidade de a reduzir a nada, quer dizer pô-la a andar, tirá-la do limite, da soleira. Limites há-os de todas as formas e feitios, os mais simples são um simples rasgão, um sulco onde se acumulam restos e águas paradas, nicho de girinos e mosquitos, são um borbulhar de vida. As silvas são outros, parecem dividir o mundo por vontade própria, cidadelas onde coelhos e outras espécies gentis se abrigam, uma trama espinhosa, arisca e mal-educada. Os sábios chamam-lhe Rubus, seriam uma escolha provável para o senhor falar com Moisés se este andasse por terras latinas, de fácil enrubescimento, difícil era não se consumir, esse piedoso arbusto, protector dos mais fracos, quando lhe toca o fogo entrega-se sem meias-medidas; É da família das rosas, o que explica a excessiva sensibilidade. Estranha mania de varrer a complexidade para fora da mesa, o que lacerou a cabeça do salvador não pode ser coisa boa... é ver os miúdos no fim do verão todos borrados do fruto escuro que tragam cheios de gula. Malvada moita que pune o filho e chateia as mães, uma besta sentimental, se assim não fosse não era visitada pelo chapim e outros voadores de pequeno porte, seres alados que escapam às definições e a outras armadilhas, astutos e irrequietos, sabem que a alegria é imperdoável, os pequenos pássaros são como rastilhos, expectativas florescentes, tímidas, contidas expectativas, apenas assim podem passar os limites e andar por terrenos onde ninguém anda.

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