As moscas são dos bichos mais bravos que conheço, se nos entram curiosas pelas janelas não é de ânimo leve que nos abandonam. Batem com os olhos no vidro até lhes entrar o azul no corpo. Passados séculos de tortura e morte refinadas pela indústria, amam os homens de modo incondicional. Nervosas, como todos os grandes amantes, destemidas e imprudentes, arriscam tudo para encostar os pés cerdosos como um urso na pele rosada pelo sol. Não suportam ver-nos quietos, e usam tudo ao seu alcance para que demos sinais de vida, mesmo que seja a custo da sua. Uma libido impiedosa rege a sua breve passagem, por isso despontam no calor, feras do verão, têm à morte um desprezo sem fim. Por vezes, moribundas, perdem-se num decote aberto como um cortinado ou noutro lugar pardo e solitário, mas em vida é a luz que as alucina. Foi talvez ao admirá-las que Cravan se apercebeu ter mais mérito quem descobre o mistério na luz do que quem o descobre na sombra, pugilista enamorado devia vê-las com gosto nos seus combates mortais.
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