26 de mai. de 2022

 O meu quarto tem uma parede curva que acompanha a travessa do outro lado, é, por assim dizer, o ponto doce do lugar, leva a aragem da janela sem interrupção até à cabeceira da cama. Por vezes penso que é aí que os meus sonhos se arredondam, onde se emaranham de tal modo que não encontro a saída do labirinto. As pinturas que tenho na parede estão a uma altura idiota, aproveitei dois pregos que já lá estavam e ficaram a dois palmos do tecto, fazem-me sentir um intruso num quarto de um gigante. A sensação de entrar no quarto de um desconhecido repete-se com alguma frequência, chegada a hora de ir para a cama, deixo de reconhecer as minhas coisas. O cortinado cinza-rato corta-me o lampejo da rua, e, sem nada que me engode os olhos, entro num mundo sonoro, acanhado, onde a pobreza de vestígios me deixa encostado à imaginação. É um quarto despojado, mas sem o desalento de um quarto de hotel, apenas uma hesitação, um pensamento que se enrola na curva da parede, me faz entrar na noite como numa sala de espera, fico colado ao pulso de tempo, um tambor maníaco que não me deixa escapar impune. A possibilidade de me escapar é um dos maiores capitais que disponho, lembro-me de quando me fazia de surdo, era a minha forma de me manter sur le motif, perto da mutação que tanto perturba os homens. Fazer greve era nos dias bons uma maneira de acossar mundos que desconhecia.

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