Consegui retomar a rotina, que infelizmente não é quotidiana, de ir cedo para o café. Este onde fui hoje é mais barulhento, mas tem coisas a seu favor que o outro não tinha, soube-me bem sair do ambiente esterilizado do aquário onde costumava ir, estava a tornar-se demasiado cândido, os riscos que corria resumiam-se a um encontro com um velhote que nunca me dirigia a palavra. Aqui o barulho é salutar, e é de tal ordem que a televisão que têm ligada não se consegue ouvir, só isso já é caso de apreço, e depois os ruídos de motores e vozes são como uma meada que o pé-direito alto trata de enlear. É um lugar extenso, numa escala que se deixou de praticar, são belos os lugares onde se desdobra a amplitude do corpo, e neste café, aberto ao frenesim da partida, sento-me sem esperar nada. A rapariga que me atendeu tanto tinha o perfil afilado de uma ave de rapina como um ar de roedor doce e acanhado, de quem, para lá da matiz de selvajaria, gosta de lidar com pessoas. Um amigo meu falou-me uma vez de um sábio sem tecto que dizia — ele há pessoas, e eu gosto. —, esta sentença com ar de pouca coisa ficou-me na cabeça, talvez por ir contra o preceito que se passa sem aí pôr o juízo, demasiado fácil de praticar, que prega o desprazer da pobre figura. Em pequeno achava ter um espontâneo reconhecimento de quem vinha por bem, e ainda mais afinado de quem acreditava vir por mal, alguém que, sem serem trocadas palavras, identificava como desafeiçoado e ruim; difícil de admitir é a hipótese de se tratar de um vislumbre de algo que não queria reconhecer em mim, e, no entanto é mais provável do que um suposto dom sobrenatural que me retira das contradições do mundo. Há decisões que me mantém numa repetição de gestos e que me reduzem o mundo àquilo que teimo ser para o meu bem. Passei o resto da manhã de volta do seguinte problema: porque é que as emoções, que são as primeiras coisas que aprendemos a fingir, são mais tarde aquilo que teimamos em tomar como sinal da verdade?
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