19 de mai. de 2022

 

Em miúdo dava a volta ao meu bairro de olhos fechados, parece um modo de falar, mas dava mesmo, claro que não era a volta inteira, mas ao longo dos dois muros maiores, esticava o braço e escapava-me do visível, com uma azeda nos dentes entrava num território assombrado onde os limites do corpo eram difíceis de estabelecer. Seguro apenas pela pequena âncora dos dedos a raspar na parede ia adivinhando o que me rodeava. O pastor alemão do meu vizinho, que apesar da relativa convivência me continuava a assustar, fazia-me abrir os olhos, mas assim que passava o limite do seu quintal voltava a fechá-los. Construia a vida que me envolvia como um sonho constrói um cenário a partir de uma sensação. A fronteira entre o que tinha por certo e o que aparecia vindo do nada era bastante ténue, e daí o entusiasmo da brincadeira. O ronco exagerado de uma mota era um braço a derrubar um castelo de cartas, começava outra vez. Tentava adivinhar a distância da casa do amigo, pela textura do muro onde tocava ou, se tivesse sorte, pela voz melosa da sua vizinha, o cheiro de gasolina misturado com a vegetação brava davam o exotismo necessário às suas canções.

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