Passei a noite a palmilhar a cidade, acordei a pensar que há tempos que não faço uma caminhada. Quando estou quieto desoriento-me, se me ponho a andar o pão fermenta a outra velocidade. Há quase um ano que comecei em simultâneo a escrever e a andar com maior regularidade, a cidade que pensava conhecer mostrou-se esguia e difícil de agarrar. Não é só o distante que se esconde quando me perco em rotinas apertadas, tudo parte em debandada. A vegetação da avenida insiste como um lapso em dizer o que não oiço, o chão é onde encontro o que se perde, é com o que se perde que desenho o caminho que vou tomar. O chilrear dos pássaros faz um tapete onde as raparigas se encostam quando passam, o eco dos tacões enleia-se no cheiro agudo do alecrim e o corpo, torto e desabituado do andar, tende a encontrar posição onde isto aconteça sem o incomodar.
1 de out. de 2022
15 de set. de 2022
Os olhos perdidos debaixo de uma testa alta como uma duna da qual brota um feno louro que lhe cobre as costas, atendeu-me com um sorriso acanhado, os lábios pareciam picados por uma abelha, excessivos, requeriam esforço para conseguir dar atenção a outra coisa, o nariz com a forma curva e longa de uma foice dividia o rosto redondo deixando as maçãs isoladas a apontar para direcções opostas, uma face ondulada e difícil de abarcar de um só golpe. Tem um belo crânio, largo e pesado para o pequeno pescoço que o sustenta. Em torno a isto há a ressonância inoportuna da voz, esta, segura todos os elementos com uma dúvida flutuante, deixa-os frementes, assombrados. Se vejo uma face e me deslumbro com o seu semblante, suspeito sempre já a ter visto algures, uma primeira vez em que me passou despercebida, como se o encantamento dependesse sempre de um reconhecimento, a sedução de algo que se move entre o estranho e o familiar. À partida todos os rostos me são familiares, todos têm o mesmo ponto cego onde projecto o meu reconhecimento, do qual espero que me reconheçam, mas este "à partida" é tão distante como uma personagem de um romance lido na adolescência. Talvez não consiga evitar ver os rostos que me cativam rodeados por uma auréola narrativa, o que me deixa numa floresta onde posso perder o que aparece. Onde está a menina que me serviu café, cujo rosto parecia polvilhado de farinha? Tenho de tactear o véu que antecipa todos os encontros. A ambiguidade do que vejo ao longe não acontece também quando me aproximo? Uma mulher que surge ao fundo da rua parece-se tanto com o que imagino que me relaciono mais com a minha fantasia do que com o que vejo, é a minha fantasia o que vejo, por isso me aborreço entre coisas que descarto como irrelevantes, apenas quando ela se torna um cão de caça que parte à procura do que vê começo a ver.
10 de set. de 2022
A sombra é uma costureira experiente que alinha retalhos uns com os outros, um manto de contradições sobre o qual caminho despreocupado. Tivesse a sua habilidade e desenhava a fruta com o perfume das mãos da vendedora e a vendedora pela cor das suas maçãs, temperadas pela sombra do chapéu, unem-se num aroma que se espalha pela praça. Ando no lado sombrio, submerso no sossego cinza da calçada, como se de um espaço diverso se tratasse, os fregueses agitam-se ao sol com os braços longos como ramos caídos sobre a água. Desocupo-me como não fazia há muito no tapete efémero, encostado aos sons que correm pelos beirais, à claridade que se espalha nos caminhos abertos pelos pés e pela cabeça, caminhos que me levam a um lugar que se desacerta deste, que se acomoda por vezes, sem significados, um lugar que caí, que se despenha. A sombra dá-me a ilusão que se chegam a tocar, que as coisas estagnam por momentos, que sossegam a fuga que empreendem, mas uma sombra oscila entre um poço e um abrigo, tanto me engole como me protege, e a vendedora, que mergulha as frutas na luz quando as entrega, cobre o rosto com o escuro como quem não saí casa.
3 de set. de 2022
O ar frio é mais revigorante do que café, faz-me crer que os pensamentos ficam agudos e mais próximos os alvos que procuram, talvez o tiro com arco não sirva bem o propósito do que quero dizer, se soubesse bem o que quero dizer. Há certamente quem passeie pelas suas ideias de forma decidida, saltando de pedra em pedra sem questionar se é sólido o sítio onde põe os pés, mas serão suas as ideias? As que me vêm não sei de quem são, aparecem frágeis como um pano puído, tenho de as pincelar com cera e deixá-las ao ar, quando o grande luzeiro se apaga espero que alguma sombra se grave no rosto esburacado, volto a olhá-las de manhã, agarro num punhado delas e vejo se as posso enlaçar com outra coisa que apanhe com a mão esquerda, se não for tomado por pensamentos graves, esses levam-me para longe de onde fervilha o vivo. Aristóteles disse que a vida, se era exuberante no reino vegetal, explodia nos animais, nós, que os copiamos há milénios, cobrimo-los com lençóis molhados para que os estilhaços não nos atinjam a cara, habituámo-nos à temperatura, e hoje quando falamos de nos copiarmos uns aos outros é com a cara esborratada de carvão de quem tenta ver alguma coisa com a ajuda do negro.
2 de set. de 2022
Já chegava à porta do prédio quando reparei que ainda estava em casa caído sobre a napa viscosa do sofá. Surpreendido com a agilidade com que as pernas desceram as escadas, abri a porta orgulhosamente, mas assim que me encontrei na rua deixei-me a percorrer o passeio ao abandono e refugiei-me no que deu à costa da travessia noturna, tinha tido um sonho típico de uma qualquer angústia que não queria afrontar. Ao aproximar-me da estação a azáfama trouxe-me de volta à coisa andante que, agora junto a outras que se cruzavam com ela, parecia ter entrado num acordo mais justo. As variações a que estou sujeito fazem com que fique por vezes tão contente de me encontrar como a um amigo que não via há tempos. Haverá alguma medida entre o corpo de hoje desconjuntado no sofá e o que ontem se mantinha uno como uma centelha à beira-mar? Claro que este último era amparado pelo ar salubre e pelas manchas rosas que tingiam a areia de um perfume sobrenatural, um timbre salmonado que deixava o horizonte trémulo como uma corda de guitarra.
28 de ago. de 2022
Domingo de manhã é um território de ninguém no bairro onde moro. São-me mais próximas as ruas desertas com a obscuridade, a imprecisão deixa-me confiar de um modo risonho nas más interpretações, e não sinto amputado o que espero da cidade. As mesmas ruas quando o sol desponta a um domingo mostram a incompletude da dança que não se chegou a fazer, passar na avenida a esta hora assemelha-se a encontrar um estrato geológico novo depois de um deslizamento de terras e não conseguir distinguir o aparecimento do novo da presença do que ficou subterrado, talvez não seja isso, há um véu sobre os edifícios, para além do silêncio que se estende até uma hora mais tardia no dia do senhor, uma indolência atmosférica, como se a cidade se recompusesse de um gozo noturno e vagueasse pelos sonhos gasosos da embriaguez. Tinha escapado ao remoinho, ou melhor, tinha sido rejeitado, empurrado para esta moleza terrosa sem ferramentas para descobrir o que acontecera, o que vejo eu de um corpo que sonha? Ténues sinais de vida, a respiração escancarada de um sono pouco profundo, a transpiração, uma opacidade constrangedora. É um dia de langor, onde a inclinação ao mais fácil está inscrita nas pedras e nos corações dos homens, assim seja.
27 de ago. de 2022
A noite enlaçou-se na minha barba e não me deixou dormir, por descuido não travei os avanços do arbusto, ainda ontem era um musgo suave, agora é um monte de tojos secos e aguçados. Não penso com afinco no decorativo, confio que ela tenha alguma ordem e contenção, mas apesar da aparência não a trato por tu, sei que pertence a outro mundo, quase imortal, desmesurado, passa-me entre os dedos como um regato, dá-me vertigens não parar por nada nem por ninguém. Se lhe cabe alguma virtude é legar-me a tarefa do corte, de lhe impor um limite. De resto, só lhe faço caso se floresce ou se alguma saia se prende nas pontas. Como se eu não chegasse, tenho ainda de acalentar este lume. Não preguei olho por sua causa, a senhora da noite ficou com o manto preso no arame farpado.
24 de ago. de 2022
O dia carente de luz e o meu espírito amputado são siameses. O que me safou foi a minha preguiça, ela, que normalmente me deixa pendurado em divisões empoeiradas, levou-me a conformar-me à invisibilidade circundante, e dei por mim entusiasmado com um dia pardacento que ia passar entre turistas excitados, na prática, lamento não os conseguir observar com atenção e perder a maioria do tempo a tentar dar trocos certos, acredito que aprenderia qualquer coisa, teria de andar ao seu lado, pois passam com o dedo no gatilho. Nos meus sonhos a porta giratória do café começou a rodar sozinha e as pessoas saiam disparadas para o meio da rua, iam-se amontoando até fazer uma barreira que dividia a rua. Parece-me que não me tenho sentado com ninguém o suficiente para o corpo ganhar o assombro que os corpos ganham quando estão quietos à minha frente. A disparidade tomou as rédeas dos meus dias, e entre o excesso de gente no trabalho e a míngua ao serão, onde nem a mim me encontro, fica a paz traiçoeira da boca fechada, ou como escreveu Lichtenberg "o seu tinteiro era um autêntico templo de Jano; quando fechado, a paz reinava no mundo inteiro."
7 de ago. de 2022
Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.
2 de ago. de 2022
Volto ao parque como a um lugar que me acolheu, podia começar assim, mas não é por isso que aqui venho, um cigarro e os olhos fechados chegavam para esse fim; a maioria das vezes que volto a um lugar que me acolheu de braços abertos é para fechar os olhos, se me sento neste banco na margem do lago como se de um barco se tratasse, é porque espero que alguém se sente e reme numa direção qualquer. Tudo é um esboço do que pode ser, os miúdos amigam-se com o entusiasmo do jogo entre-dentes, eu acanho-me com a monotonia do gesto acabado. O céu está pálido e baço como a espuma de um galão, as casas atrás das árvores parecem feitas de cartão, saídas de um pensamento que se põe de pé para que passemos por ele, atrás dos plátanos semeados por alguém com outro pensamento em mãos. Passam vultos ao longe entre os arbustos, onde se ocultariam as engrenagens de uma tal animação? O ócio adoça o largo como um fruto maduro num dia de sol. Saber que os homens passam aqui com um fim diverso do salário humaniza-me a ignorância.
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