23 de jun. de 2022

 Não ponho de imediato os óculos quando acordo, deixo-me ficar na paz míope, sem sobressaltos, as coisas diluídas umas nas outras, é um bom estágio para uma transição branda da selvajaria de onde venho. Por outro lado, deixo o grande conformista, falo do encenador que me habita, mais duvidoso, sem conseguir montar num arroubo o teatro que conhece. Deitado, espreito o pequeno fulgor laranja que junto ao parapeito verte para o quarto, lembra-me uma pintura que os meus pais tinham na sala, o tesouro, costumava chamar-lhe, retratava uma cena piscatória junto à costa, na falésia uma gruta resplandecia como se guardasse o sol no interior, os barcos içavam as redes indiferentes ao luzeiro que vinha da caverna; passei horas a imaginar o que estaria no interior, agora, olho para o rasgão alaranjado da janela e espero sempre que o dia me prometa mais do que o dia, mas sei que nada tenho a esperar, senão o tempo que lhe roubo antes de pôr os óculos, assim como não esperava nada quando me sentava junto ao quadro na sala dos meus pais.

22 de jun. de 2022

 Apesar da repulsa e hesitação, arregacei a manga e com o polegar esquerdo entre os dentes deixei a mão direita furar a gelatina seca que cobria o tanque, a água morna e acetinada fez-me retirar o braço num repente, mas tinha de o fazer, já demasiadas vezes, ao voltar do trabalho, me imaginei a mergulhar neste tanque e escapar de uma rotina cada vez mais apertada, de qualquer modo, não sou tolo, não me vou atirar para um tanque de águas paradas com dois metros de largo. Primeiro ponho lá o braço, depois, se não ficar com alergia, logo penso no mergulho. De onde virá a fascinação com o retângulo verde onde o céu se reflecte de um modo falso e distorcido? Parece desprezar o mundo, numa combustão entre a vida e a morte que me perturba. Também eu sou falso e distorço o que me aparece. Não consigo fazer frente à decomposição sem atirar imagens para a fornalha. Lembro-me de ter visto, há dias atrás, um ouriço morto, a empatia com o pequeno bicho transformou-se noutra coisa quando me aproximei e vi que era devorado por formigas, centenas, umas sobre as outras num festim que me fez recuar como quem quer voltar a adormecer. No entanto, penso em atirar-me para dentro do tanque, principalmente nos dias em que a vida parece verosímil, quando plano sobre ela como quem espera estatelar-se.





18 de jun. de 2022

 

Andava devagar, apareceu à minha frente vindo da estação, tinha a face embaçada de quem percorre uma grande distância sem que o espírito se mova. Os ombros pareciam desencaixar-se com os solavancos dos passos, como se pequenas fracturas lhe quebrassem o equilíbrio articulado dos membros. Andei no seu encalço bastante tempo, revelava uma série de desamizades com o que o rodeava, um tremor destacava-o dos que passavam por ele e se moviam com o desembaraço de uma corda que se sacode. Esta fragilidade fez-me segui-lo sem pensar que o fazia, era uma força, bem vistas as coisas, uma força que apenas se reconhece em alguém que começou a ceder ao desaparecimento. Entre nós havia uma névoa, como o branco esponjoso entre a casca e os gomos do limão, parecia crescer e tornar-se espessa com o silêncio. Trazia qualquer coisa desse outro reino que se perde na obscuridade, como a pobreza extrema leva os olhos a desviarem-se passava despercebido entre os que se devoravam. No entanto, achava-o familiar, como se me visse depois de anos à procura de outra coisa, olhava a sua pele seca e avermelhada, o cabelo cinzento e ralo, muito mais alto do que eu, perto dos sessenta anos, enquanto eu me recuso a abandonar os vinte. Não deixava qualquer reflexo nas montras que espelhavam o resto da rua, fazia parte de mim como um ladrão que recolheu os dias que deixei ao acaso.

16 de jun. de 2022

 

Sem que saiba como, o estorvo que ontem me atirava ao chão desatou-se sem grande alarme. Os plátanos marcam-me os passos numa cadência rara, caio com a avalanche copiosa dos cabelos que vogam à minha frente e galgo pelo ar como um papel que se incendiou. A praça está loira e almiscarada, uma mulher inchada e lustrosa como um pêro leva uma cesta de legumes debaixo do braço, diria um gigante com uma floresta. Num instante a praça enche-se, mulheres enormes, perfumadas, ciprestes altos com pequenos homens entre os ramos, outras curvadas com um cordel no indicador fazem saltar os homúnculos a seu bel-prazer, guardam-nos nos bolsos ou nos sacos com as verduras. Procuro fugir para não ser pisado como uma formiga, entre as pregas de uma saia que se abre como uma sebe e os calcanhares doces como um melão, contorno colunas e cestos enormes de vegetais. Ofegante, como quem desce um monte que não se lembra de ter subido, escapo-me por uma viela ao abandono. De que me serve a alegria com que acordei?

13 de jun. de 2022

 

Saí de casa como quem se quer livrar de uma pilha de destroços. Sentei-me no banco onde nunca ninguém se senta, para além daqueles que nunca ninguém vê. Os pombos andam em círculos à minha frente, sacodem a cabeça num ritmo aprumado como se realizassem um ritual. A cerimónia foi interrompida por uma mulher que lhes devolveu alguma da dignidade que perderam aos olhos dos homens, parou o carrinho de bebé encostado ao arrulhar dos sacerdotes e começou a sussurrar aos ouvidos da criança frases que cortejavam as aves encardidas como se acabassem de sair das mãos do criador. Fiquei quieto a ver a fiada amorosa que se despenhava no ouvido do sonhador e dei graças por ninguém me ver neste banco onde ninguém se senta. Por vezes assemelho-me a um pescador que perde o ânimo enquanto planeia onde ir e que material levar, e quando finalmente tem tudo preparado diz para consigo que o tempo não agoira peixe na costa. Entretanto, passou um casal que não conseguia esconder o desamparo, o modo como se asseguravam da realidade dos outros, desbaratando o verbo ser como quem se esforça por vedar todos os buracos de um passador, não os deixava tirar os olhos do fio que seguravam. Não tenho nenhum sentido practico, e apesar de o tempo se escapar com uma agilidade que inveja os melhores acrobatas, ainda me posso sentar e ficar sem ser visto a ponderar se os pombos aparecem ou não nos hieróglifos.

8 de jun. de 2022

 

Pressuponho que tenho tempo, algum, o suficiente para me aborrecer, para ganhar distância que chegue dos ossos com que me entretenho, só assim descobri que são ocos, talvez consiga construir uma flauta, talvez não, tenho tempo, e não estou certo que valha a pena esburacar os ossos, ninguém me reconheceria se os fizesse cantar.

6 de jun. de 2022

 

A febre tocou-me com o seu dedo letárgico de medusa, dormi sem dormir. A preguiça engrossou como um molho sobre lume demasiado alto. Os sonhos não escondiam o seu cunho de prefácio, rodeavam o desconhecido, desencantados. Subi uma ordem de despejo, mas não tinha nenhuma porta por onde sair, e assim, num canto, entretinha-me a ver as paredes que erguiam e derrubavam.

3 de jun. de 2022

 

No jardim da minha casa havia uma palmeira, era bela e terrível, de folhas longas e tronco curto, dava sombra a um banco que a rodeava. Apenas alguns pardais habitavam a espinhosa trama. Para nós, era uma criatura adventícia que nos tentava e assustava, pelo exotismo, mas ainda mais pelo aviso repisado — não brinquem debaixo da palmeira que lhes fura os olhinhos! — crescia no centro do jardim, como a árvore da vida, não tínhamos para onde fugir, era um estouro de dardos em volta de uma fibra verde. Atarracada e bojuda, sem o apuro das linhas verticais que se erguem nas dunas a oriente, deixava-nos ao alcance da mão as folhas que o meu pai cortava antes da Páscoa; se tivesse parte na boa nova, fazia parelha com a figueira, não era alta, não dava frutos que se comessem e estava impregnada de maledicências, todos os dias a minha mãe praguejava contra a maldita que crescia no meio do jardim. Furei os dedos muitas vezes, à procura de ninhos ou a arrancar bicos que serviam de munições para a zarabatana. Os meus sobrinhos vinham ao fim-de-semana, e onde se juntam dois ou três o guerrear está no meio deles. O entusiasmo aumenta a vertigem e esta a possibilidade de errar, safei-me com um braço furado e durante uns tempos não se partiram mais bicos das mãos verdes que se abriam aos céus. Passados anos voltei a casa, não havia palmeira, nas suas vezes estava um telheiro com um carro estacionado. Agora vejo-a demoradamente, descubro como tingia o ar e fazia um tecto que nos abrigava do calor, vejo sempre mais do que julgo ver, enquanto me concentrava em agarrar o miúdo que se escapava ouvi-a assobiar ao vento sem saber que o fazia. Por vezes assusta-me a mutação, nada se mantém quieto, muito menos o que passou, cada vez que me volto para o agarrar muda de cores e de feição.

1 de jun. de 2022

 

Depois de ter feito batota no um-dó-li-tá para ver quem era mais pequeno, levei-a à escola atrapalhado pela vitória. Quando voltei, pensei no que atravessa a cabeça dos que dizem ser crianças "lá dentro". Parece-me difícil ultrapassar a muralha da adolescência num estalar de dedos, e a maioria das vezes, falo por experiência, cometemos o erro de construir uma figura a partir de uma sensação presente, como se nada se tivesse alterado na forma como vivemos. A figura do pequenote que dança e ri quando quer e lhe apetece, que se deleita e regala sem nos inquietar demasiado, é uma figura que tende a aparecer para suportar os apetites de um adulto que se quer desembaraçar de um problema, dá bastante jeito num mundo fosco. Mas o assombro de não reconhecer os limites, o temor e o inesperado que os assalta sem previsão, nem sequer vêm à superfície, esses e outros desequilíbrios ficam perdidos, subterrados num tempo onde a música passava pelo olho da agulha.