No jardim da minha casa havia uma palmeira, era bela e terrível, de folhas longas e tronco curto, dava sombra a um banco que a rodeava. Apenas alguns pardais habitavam a espinhosa trama. Para nós, era uma criatura adventícia que nos tentava e assustava, pelo exotismo, mas ainda mais pelo aviso repisado — não brinquem debaixo da palmeira que lhes fura os olhinhos! — crescia no centro do jardim, como a árvore da vida, não tínhamos para onde fugir, era um estouro de dardos em volta de uma fibra verde. Atarracada e bojuda, sem o apuro das linhas verticais que se erguem nas dunas a oriente, deixava-nos ao alcance da mão as folhas que o meu pai cortava antes da Páscoa; se tivesse parte na boa nova, fazia parelha com a figueira, não era alta, não dava frutos que se comessem e estava impregnada de maledicências, todos os dias a minha mãe praguejava contra a maldita que crescia no meio do jardim. Furei os dedos muitas vezes, à procura de ninhos ou a arrancar bicos que serviam de munições para a zarabatana. Os meus sobrinhos vinham ao fim-de-semana, e onde se juntam dois ou três o guerrear está no meio deles. O entusiasmo aumenta a vertigem e esta a possibilidade de errar, safei-me com um braço furado e durante uns tempos não se partiram mais bicos das mãos verdes que se abriam aos céus. Passados anos voltei a casa, não havia palmeira, nas suas vezes estava um telheiro com um carro estacionado. Agora vejo-a demoradamente, descubro como tingia o ar e fazia um tecto que nos abrigava do calor, vejo sempre mais do que julgo ver, enquanto me concentrava em agarrar o miúdo que se escapava ouvi-a assobiar ao vento sem saber que o fazia. Por vezes assusta-me a mutação, nada se mantém quieto, muito menos o que passou, cada vez que me volto para o agarrar muda de cores e de feição.
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