31 de jul. de 2022

 

O ar está quieto, tão quieto que desconfiei que não me corria pelos pulmões o lume desinteressado que o caracteriza. As árvores lado a lado, numa disposição cénica esburacada pelo valor evanescente do azul. A avenida do parque alonga-se como água que transborda de um lavatório, mas o que me enche de espanto é o murmurar das gentes que passam, atentos a este pequeno dilúvio que qualquer excitação faria passar despercebido. Uma pele de leopardo, a terra laranja tricotada pela sombra dos plátanos, dissimulada com o ardil do felino, é preciso ouvi-la para a ver, cheira a farinha torrada, ergue-se atrás do bater dos pequenos passos que correm no sentido do pelo, não digo isto num sentido animista, as coisas não precisam desse empréstimo de alma que se paga demasiado barato, mas sem a analogia como me conduziria pela terra? Lichtenberg escreveu num caderno que a palavra incomparável mostra o que se pode fazer das palavras no mundo. Que o ar quieto se move, que se despenha sobre nós como um remoinho, descobri-o no miradouro da foz, quando voltei a cabeça para baixo e olhei o horizonte de pernas para o ar, o mar agitava-se no lugar dos céus como se uma estrela se fosse despenhar sobre a terra.

27 de jul. de 2022

 

Nos dias que me arranco a custo da cama fico muitas vezes com a impressão de percorrer o lado mais alheio do lado de fora das coisas, seguro por um peso que tende para o sossego e dispensa qualquer aventura, o centro de gravidade desabou e comporto-me como um sempre-em-pé, inclinar-me em direção a algo é um esforço desmesurado, e aborrece-me muito não ter nenhuma inclinação. Resta-me o desequilíbrio provocado. Em miúdo voltava a casa apenas para tomar fôlego antes de dar a debandada, era lá fora que encontrava a minha razão de ser, nenhuma identidade me tinha quieto sobre si, hoje qualquer coisa permanece esquecida, tenho por força de me inclinar. É graças à inclinação que o deslize acontece, e é graças ao deslize que o embaraço aparece. É bom ficar embaraçado, é uma pedra de toque preciosa, tirando algumas situações é normalmente sinal que me defronto com algo sólido, e, além disso, obriga-me a mudar de posição. Quando não vejo nada, é o embaraço que mostra que me faltou o degrau debaixo do pé, e os instantes em que o corpo não se conforma são um estado de graça despercebido, são um parêntesis aberto que me suspende sobre o texto. Os montes fascinam-me por diversas razões, uma delas é a relação do declive com o estado amoroso, quando subo um monte inclino-me sobre ele como um amante, perco a soberba sem me submeter, procuro vencê-lo com o esforço alegre de quem se deixa para trás, depois descubro a bondade do chão onde me abandono, liberto da tensão de uma inclinação cortês.

26 de jul. de 2022

 

Uma meloa aberta ao meio, perfumada e suculenta, assim me parece a piscina. Exposta à vitalidade do verão uma grande banheira que nos deixa presunçosos de ter os elementos ao dispor. Os miúdos agitam-se como formigas no fruto maduro, ao seu redor o tempo derrama-se aos soluços, as cabeças deitadas deixam escapar caprichos sobre as toalhas, acreditam que o calor é um bálsamo contra o tédio, vestem-se com o calor. A cura difere conforme o paciente, uma rapariga com a mão na água cintila como um tacho de latão e espreita se encandeia alguém, um casal adormecido parece esperar que o desgosto se incendeie e consigam falar sobre o jantar sem um sabor a cinza na boca. Estávamos encurralados na mesma casa-de-banho, lado a lado, encostados à ilusão de estar acima da natureza, um bando de exilados que fingem ser familiares. Se conseguisse ler as pregas da toalha, talvez soubesse como se debate o corpo que mostra e oculta a ansiedade. Faço de conta que tenho alicerces, fico quieto, como se este borbulhar de vida não fosse um efeito da putrefação, um gás magnifico e inebriante que se liberta do manto silencioso.

17 de jul. de 2022

 

Deitado com a janela aberta olho o tecto azulado pela lua, nada para além da experiência me garante que não olho o céu nublado, acredito ser o tecto como acredito que se rebolar me estatelo no chão, mas não me consigo mexer, o ar está parado e se a casa fosse mais leve descolava como um balão. Oiço, dois andares abaixo, passos impetuosos como cavalos a trote, as vozes entrelaçam-se em segredo, chegam-me apenas murmúrios, a vitalidade dos passos aliada com a fragilidade das vozes leva-me a pensar no urso de La Fontaine, demasiado forte para o gesto amoroso que queria fazer. Os murmúrios podem bem ser uma oração, mas as pernas que batem numa pulsação feroz estão mergulhadas na alegria. A noite cheira a aveia torrada e o bulício nocturno fervilha sobre o zumbido dos carros. Enquanto espero que o vento entre de surpresa pelo quarto, os ursos, carregados de ternura, vão desfigurar-se carinhosamente.

4 de jul. de 2022

 

Do outro lado da janela o mundo insiste em fazer-se notar, diria um amante que teme cair no esquecimento. O ar rarefeito deixa-me ouvir os carros na avenida, o horizonte está próximo, posso senti-lo no palato quando passo a porta do prédio, um sabor metálico mistura-se com a maresia que o grasnar das gaivotas amplia, rodam como aves de rapina sobre a estação de comboios. Morar junto à estação é ter uma mais-valia de promessa, uma reserva de expectativa ao alcance da mão. Para além de me ritmar os dias e as noites, a má qualidade da janela faz com que durma de orelhas na rua, por volta das cinco da manhã há um comboio que permanece a trabalhar enquanto lhe enchem o depósito, fica assim trinta minutos antes de sair rumo a Lisboa, esta semana não dei por ele, o que quer dizer que ando descansado, nota-se na facilidade com que me ponho a estalar os dedos, não pelas longas páginas de rabiscos inexistentes, a vitalidade faz-me descobrir ritmos no zumbido dos insectos, nos passos da vizinha, no contraste de cores que o sol agudo põe em confronto. Nestes dias, em que a boa disposição me leva a encantar com qualquer coisa, partiria de boa mente numa carruagem de segunda classe, mas tenho de aproveitar a energia para pensar nas coisas que deixei paradas, senão restam-me os dias partidos em que oiço os comboios de madrugada. Nada disto é certo, por vezes o esforço de ficar quieto num dia inclinado ao fervor é maior que o esforço de concentração num dia de noite amputada. Apesar de não me regalar com os motores às seis da manhã, os comboios são bichos bravos carregados de incerteza. O pequeno comboio que saí às seis da manhã, imagino-o cheio de vida, trabalhadores que partilham o pão e palavras cheias, entusiasmados, capazes de bradar aos céus e olhar para o outro com a face iluminada, imagino-o, pode ir vazio, mas como me tira o sono, gosto de o pensar revigorante, mesmo nos momentos delicados, vejo um homem que admira o mover de mãos de uma mulher que prende o cabelo, que se demora nas linhas dos braços e nas costas soalheiras, e desse pequeno gesto concluí sobre a fartura da vida.