30 de mar. de 2023

 

O café aonde vou é um lugar onde passa muita gente, com a paragem ao lado, é um reboliço de entra e sai o dia todo. Mas entre os autocarros há momentos sossegados, a pulsação baixa, o ar cai sobre as mesas como um napperon, é uma sala preparada para um festejo inesperado. Nestas alturas, entram pessoas com o hábito de aqui vir, senão todos os dias, pelo menos com alguma regularidade. O acaso benigno de as ver mais do que uma vez torna o espaço mais afeito, e isso é uma coisa antiga e simples que, apesar de não estar sempre presente, é uma porta aberta num lugar abafado. Hoje, numa destas suspensões da correria, entrou uma mulher que vi pela segunda vez, o que não teria nada de invulgar não fosse alguém que, da primeira vez que a vi, me levantou uma questão como uma lebre escondida numa moita, uma dessas questões que as crianças põem com a perspicácia de quem desmonta uma armadilha. De onde a conhecia? Tinha a certeza que já a vira outrora, uma certeza turva, mas uma certeza. Com uma face mansa, sem brilho aparente, pele cor de algodão desbotado, um creme rosado que se ajusta sem grande contraste ao cinza-escuro do cabelo, cabelo longo e revolto como o mar nas enseadas da serra, enrolado na roda do tempo parecia crescer sem fim à vista. Está sobre a cadeira como uma construção que começou pelo telhado e do seu cimo continua a florescer. Sentada na outra ponta do café, tem no rosto o sossego de quem se escapou de um labirinto. Será isso o que reconheço nesta mulher que estou certo de já ter visto? O contentamento acanhado, de quem olha pela janela e não tem de virar à esquerda nem à direita, mas repara que o tempo vai mudar e se alegra com a camisa azul que passa por cima do telhado.

11 de mar. de 2023

 

O cheiro torrado do café mistura-se com a luz amarela do candeeiro, saber que o vou beber desperta-me mais do que quando o bebo. As crianças, mais sérias do que eu, brincam no quarto, mergulham numa encenação sem hesitar. Fecho a porta, folheio uma mão-cheia de livros, as vozes passam pela porta empenada, não vivo num tanque, no entanto, dentro da minha cabeça, quantas vezes não me enfio numa barricada que me esconde da alegria. Os pequenos nunca se aborrecem quando estão juntos. Se me entusiasmo tanto com alguém como eles entre si, pareço idiota, desequilibrado. A minha begónia tem as folhas mortas penduradas, esqueço-me de a arranjar, gosto do ar bravio que dá ao vaso como lianas que pendem em seu redor. O que precisaria de fazer para despontar tal entusiasmo? Não me lembro onde li que as coisas mais sólidas que construimos são as prisões e mesmo os caixões são de mogno para ver se nos aguentam mais tempo. Onde quer que vá tenho de me pôr a escavar para encontrar alguma coisa.

10 de mar. de 2023

 

Dois livros pousados na mesa, a chávena abandonada debaixo da costela-de-adão, o sofá com uma flor branca de espuma que interrompe a desolação da napa. No aparador um par de fotografias e uma ténue camada de pó que o acolhe junto dos vivos. O sol entra pela marquise, divide os tacos de mel cintilante dos que desaparecem em tons outonais, as coisas erguem-se do sono para o lume, mas a cortina é compassiva e acalma-lhes o temperamento. A discreta felicidade espalha vestígios ao acaso, a janela aguarda que me incline e esqueça as coisas deste lado, mas a língua vai à minha frente e trafica os tempos sem cuidado.

5 de mar. de 2023

 

Quando olhei para trás um nevoeiro espesso cercava o dia acabado. Sei que acordei cedo, porque nunca acordo tarde, devo ter dado uma volta de manhã, o ar frio e a luz afiada deixam o bairro emproado, não havia ninguém nas ruas, senão lembrava-me, é um prazer tropeçar nos outros, lembro-me dos descampados debaixo da ponte porque estavam verdes, por o verde ser debandada, pulsa como uma resposta, não apenas à chuva, mas à maioria das questões celestes, em trânsito, é o que indica o verdor, não há sossego para o vegetal. As ruas estavam desertas, andei com o espanto despojado dos que vão à larga. Uma névoa levanta um muro em redor do que me passava pela cabeça, se fosse uma sebe, como diz no Avot, fareis uma sebe para o meu ensinamento. Uma sebe, porque um muro depois de feito está arrumado, mas a sebe tem de ser aparada, cuidada, senão engole aquilo que guarda. É um regalo saltar sebes, se não houver cães do outro lado.