5 de mar. de 2023

 

Quando olhei para trás um nevoeiro espesso cercava o dia acabado. Sei que acordei cedo, porque nunca acordo tarde, devo ter dado uma volta de manhã, o ar frio e a luz afiada deixam o bairro emproado, não havia ninguém nas ruas, senão lembrava-me, é um prazer tropeçar nos outros, lembro-me dos descampados debaixo da ponte porque estavam verdes, por o verde ser debandada, pulsa como uma resposta, não apenas à chuva, mas à maioria das questões celestes, em trânsito, é o que indica o verdor, não há sossego para o vegetal. As ruas estavam desertas, andei com o espanto despojado dos que vão à larga. Uma névoa levanta um muro em redor do que me passava pela cabeça, se fosse uma sebe, como diz no Avot, fareis uma sebe para o meu ensinamento. Uma sebe, porque um muro depois de feito está arrumado, mas a sebe tem de ser aparada, cuidada, senão engole aquilo que guarda. É um regalo saltar sebes, se não houver cães do outro lado.

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